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Análise Curricular

“Oi ! Por favor, posso preencher uma ficha ou deixar um currículo?”. Hoje isso soa ridículo “Curriculum vitae”, coisa romanceada demais, expressão que vem do latim e significa “desespero por um trampo”.

Havia um requinte supérfluo em enviar esses papéis, ninguém os via, nem os lia. Deixavam no máximo uns segundos em frente aos olhos e fingiam poder, mexiam a boca simulando ler, corriam as vistas sob os dados aleatórios e diziam “Grato! Em breve entraremos em contato”. Esperava animado chegar esse dia, o telefone tocar, a vizinha chamar: “É de uma firma, chamaram teu nome, é para assinar um contrato”. Os bilhetes de loteria se espalhavam pela cidade nos lugares mais variados, os meus quase nunca foram premiados. Só arrumava emprego quando era indicado. Qual a real diferença de indicado e dedurado? Acho que nenhuma, pois acabava sempre apertado de grana ou de tempo. Tempo é dinheiro e o trabalho acaba dando os dois e tirando os dois . Tinha uns trampo na real que não era para mim, saltava fora tipo nadador no trampolim. Nunca pensei em fazer a mesma coisa o tempo todo, nem ficar rico, acho ridículo quem pensa assim, mas para conseguir algo decente caprichava no currículo. Os meus nunca foram grande coisa, então tentava não vacilar na pontuação, usava ponto e vírgula , aspas, itálico e quando dava até travessão, a formatação também era impecável. Tudo em seu lugar, pedante e exagerado, faltava só uma camisa bem passada ,um cabelo penteado, uma gravata cor de chumbo e um paletó acinzentado para combinar com esse documento inultimente organizado.

Gente mente, mente para caralho e absorve na mente e nem sente na hora em que é preciso comprovar suas qualidades inexistentes. Eu também! Não tinha experiência alguma, então mentia com moderação, dentro do limite; espanhol fluente , inglês intermediário, domínio de informática , mesmo que mal soubesse digitar com dois dedos. Dois dedos de mentiras não levam ninguém para o inferno, dependendo do trampo, é claro. Enchia parágrafos com falsidades que não poderiam ser deduradas. Vendedor autônomo, voluntário em ONGS, doador de sangue, ativista em prol dos Caigangues, pontual e assíduo no trabalho, nunca fui punk, nem ficha policial, nem membro de gangue, se precisar faço até hora extra e até lavaria sua roupa no tanque. Papéis humilhantes e mentirosos, perfeitos para agradar aos patrões, precisava interpretar, me adequar aos padrões, agir como um robô “já terminei os relatórios sim sinhô”.

O brilhante documento deveria ser ilustrado com uma 3 por 4 séria, no canto direito da folha. Um olhar másculo, maiúsculo, penetrante, o diamante bruto da firma, o braço direito do patrão estampado nas pupilas negras. A leve assimetria de quem já sofreu na vida e precisa dar duro, o olho esquerdo sutilmente envergado como quem sofreu um micro AVC, arrastando um pedaço da boca no mesmo caminho. Um mapa da honestidade carimbado com olheiras profundas e arroxeadas, imperceptíveis à primeira vista, a olhos distraídos, a pele azulada de barba recém feita compõem o tom sobre tom da arquitetura laboral. Na comissão de frente, o nariz ocupa 60% da foto, as sobrancelhas e as orelhas mais uma boa porcentagem. A boca e o queixo, tímidos que eram, nunca fizeram questão de comparecer a tais exibições; pensariam os patrões: “Esse não deve ter boca para nada, será um bom funcionário”. Ali estava estampada a face do trabalho: sério, confiável, feio e infeliz. A camisa azul-marinho abotoada até a última casa como um pastor evangélico e o corte de cabelo estratégico, ultrapassado, porém sóbrio, emoldurariam o dolorido e obediente futuro “colaborador”. Um traste bem forjado, contrastes bem pensados, o bom moço que faria com que os analistas de RH gritassem em alvoroço : “Contrate”! Fazia a proeza de render duas páginas a minha chave para o sucesso, um esforço tremendo para dar corpo àquele documento. A segunda não era tão fecunda, mais ou menos um quarto de lauda quando muito, contudo duas folhas impressionavam mais do que uma. Na primeira, as mentiras e delírios eloquentes , na segunda, o vazio de minhas habilidades. Era assim que conquistava as mulheres e era por isso que em seguida elas me abandonavam. Hoje em dia até para o coração se faz um currículo virtual, mas a maioria roda na entrevista ou no período de experiência.

Voltando à labuta e uma vaga no mercado de trabalho, tudo era vago, tudo uma luta. Gastava uma grana em cópias, fotos , impressões, envelopes de papel pardo para proteger os valiosos papéis, sola de sapato, passagens de ônibus. Isso tudo acabou em um click. Não há mais currículos e nem quem os finja ler, nem quem os arquivem em gavetas de alumínio ou caixas de papelão. Não há mais secretárias gentis que digam: “ Pode deixar, entrego quando o gerente chegar”, ou outros que pensem: “Não vou entregar, podem ocupar o meu lugar”. Só existem agora máquinas e cartões, tecla e botões, chips , microchips, nanochips, ops ! Erro nas configurações, o wifi falhou , a banda larga só toca a mesma música chata “Quer sua via senhor?”. Crédito, débito e platinum, que assim como o currículo vitae também vem do latin e quer dizer “Platina lembra ouro, tenho muito din-din”. “Quem não tem emprego faz o quê, meu senhor? “Compra uma maquininha e se transforma em empreendedor”. Emprego normal para quê? Agora o patrão é você!. Não, o patrão é a maquininha que não faz nada sozinha, mas fica com a sua comissão, fácil; é só passar o cartão e o dinheiro cai direto na conta do banco, seu outro patrão que também não faz nada, mas também fica com sua fração.



Empreendendo, perdendo e seguindo a canção, somos todos iguais sem talento, sem lamento, mantendo o que não temos. Queria baixar um aplicativo que fosse capaz de mandar toda essa gente à merda. Esses que dizem quem mandou não estudar, que sempre tem emprego para quem quer trabalhar, que mesmo vindo de baixo é só lutar, que não se dá o peixe...Que a meritocracia é eficiente. Agora aqui no centro a caminhada é diferente, ninguém entregando currículo nem preenchendo ficha, alguns nem segurar uma caneta sabem. Tudo digital, vegetal, robôs adestrados, comprando suas maquininhas e tentando ser robôs de alguém invisível. Escrever é para os atrasados. Mas quem escreveu, leu, entendeu, se adiantou , ou não, porém se for filho de doutor não vai precisar ser autônomo com maquininha de cartão. O vacilão vacilou por influência da sociedade que diz “Cresça, seja empresário, dedique-se de verdade”. Esqueceu que para crescer é preciso fermento, e esse só no pão do patrão. Aliás, pão não, 10, 12 grãos integral, geléia de frutas, frutas que nem são da estação,queijo brie, coalho, caralho! Humm, deu fome irmão? Tenta vender bolo de pote com esse aplicativo. Não, eu não tô zoando, acorde, vamos dar um jeito, acorde e vem comigo, eu também sou um fudido sem fermento, só ferimentos. Enfim, não te dei a morta, não tenho a solução, puxa a cordinha “não é mais corda é botão”, dá licença! Vou descer nesse parágrafo, cansei de andar nesse buzão.

É tanta gente santa, é tanta gente anta; eu porém não sou santo, prefiro absinto à Fanta. Vou queimando neurônios, remando o barco sem vela dos sonhos, pisando em escombros, dando de ombros, furando com os dentes incisivos, cada vez mais incisivo, a bendita camada de ozônio. É muita vergonha, é muita verdade falsa vertendo das paredes porosoas do mundo e eu penso: “Quem manda nisso tudo?” Santos, antas, tontos, pilantras, astros, um pouco de tudo. É muita demanda para o mundo, sustentar e manter equilibrada uma cambada de desgraçados, malandros e vagabundos .Eu escuto tudo, Vai, malandra, an an Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum An an, tutudum, Anita não me irrita mas... Se fosse Sweet Jane, se fosse sábado, sem doutor, patrão, maquininha, messias, pastor, é muita tinta para tirar até o concreto do reboco aparecer. Eu sigo andando sem nenhum real, dólar ou dor. Só pensando mudo, dentro do meu muído mundo, não falo, não mudo. Contribuo, mesmo sem uma miúda moeda, para manter verossímil o absurdo. Se eu me chamasse Raimundo, isso não seria uma rima, seria um plágio. Eu não tenho a solução. Fui ágil, desculpa Drummond.





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