BBB e o Fenômeno Poltergeist


Trocentos filmes, séries, documentários e outras loucuradas no catálogo. Descartando as coisas ruins e as já vistas, sobra quase nada. Quarenta minutos para selecionar três ou quatro iguarias desse infindável menu, quinze minutos para descobrir que o primeiro filme escolhido já foi visto, entre cinco e dez minutos para desistir da série que não tinha nenhuma relação com a sinopse. As coisas que sobraram não possuem legendas e a dublagem é tão mal feita que inutiliza as imagens, faz todo filme ou série parecer a Vovozona ou As Branquelas.O forno elétrico fez PINNN, não há mais tempo de realizar uma nova seleção. “Ah! Azar! Coloca na TV mesmo! ”. Novo velho drama, uma caralhada de canais com filmes dublados e já na metade - os mesmos do catálogo de streeming -, programas ruins, propagandas, reprises de jogos da série A,B,C, propagandas, jornalísticos que dão as mesmas informações do jornal da manhã, novelas, propagandas, etc. O jantar vai esfriar, é preciso achar algo que não embrulhe o estômago.


A zapiação louca ancora na Globo; três em cada quatro brasileiros acabam deixando nesse canal “Porque não está passando nada, mesmo”. Esse estranho fenômeno se deve a alguma memória afetiva de um tempo em que não existiam centenas de canais e a Globo tinha a melhor qualidade de imagem e som. Salas de espera, agências bancárias, restaurantes, enfim, quase todos os lugares usavam esse canal no mute como uma espécie de protetor de tela. Então é nessa hora que é preparado o terreno para uma combinação perigosa - tipo vodka, suco de maracujá e leite condensado -, a junção das telas. O sujeito usa seu smartphone com o intuito de encontrar uma dica de entretenimento para assistir na tela de sua smart tv e não alcança o start, nem o stop. Fica preso entre telas como a menina do filme Poltergeist. Verifica e-mails e assiste a novela repetitiva . Entra nos sites de notícia, e a propaganda da telona grita com ele. Acessa as redes sociais e se dá conta que no Twitter todos estão falando de assuntos que ele acompanha na TV. Quando percebe, já fez sua digestão e já é hora de dormir, no entanto ele dedica mais alguns minutos para escrever um textão no Facebook demonizando a alienação da nação que não se interessa por cultura ou educação e é escravo dos meios de comunicação de massa. Vai dormir, mas antes curte mais algumas frases e imagens com coraçõezinhos e pensa: “Amanhã começarei aquele curso online e retomarei a leitura daquele livro que já está se desintegrando na gaveta da mesa de cabeceira”.





O homem - não importando sua ocupação ou classe social -, em algum momento do seu dia, acabará alienando-se. Alienar (do latin alienare) significa: o que pertence a outrem; afastar ou tornar estrangeiro. Alius significa outro. Grosso modo, o termo quer dizer que o sujeito cedeu, largou de mão, passou a bola, ou seja, tornou-se alheio. Outras palavras, como alienígena, sintetizam bem essa raiz etimológica. O alienado está “viajando”, alheio aos problemas. A palavra de origem latina é utilizada em diferentes áreas do conhecimento (psicologia, filosofia, direito, economia, etc). O conceito de alienação de Marx, vinculado ao trabalho, por exemplo, que propõe a tomada de consciência da condição de ser explorado como uma das formas para tentar sair dessa alienação, é diferente do uso na psicologia, que define a alienação como perda da consciência e de contato com a realidade, vulgarmente chamada de loucura. Há uma apropriação no senso comum do termo alienado, geralmente usado como insulto. O insultador está querendo dizer que o sujeito só dá importância a bobagens, distrações e ignora o que de fato é relevante na sociedade. É impossível não ser alienado em algum momento do dia, geralmente esse momento ocorre após a jornada de trabalho (que para Marx, é alienação pura, mas não é cabível aprofundar essas relações aqui), estudo ou qualquer outra ocupação. As pessoas chegam em suas casas e só querem tomar um bom banho, alimentarem-se e abstrair os compromissos de suas atividades por algum tempo; relaxar, dormir para retornar as mesmas no dia seguinte. Não há quem mantenha sua consciência plena ou somente absorva alta cultura, conhecimento ou os promova o tempo todo. A alienação pode vir ao tomar um vinho, ouvir músicas, ler livros, mexer com escultura, pintura, plantas, conversar com plantas, usar drogas, jogar videogame. Talvez haja algum ser na Terra que consiga não ser um alienado, talvez o alienista de Machado de Assis.


Infelizmente, para a maioria das pessoas, a forma mais comum de alienar-se é assistir televisão e conectar-se à internet. Na quarentena, segundo a Kantar Ibope Media, os brasileiros passaram cerca de 8 horas diante da TV. Antes da pandemia esse número era de 6h e 34 minutos. Segundo a Agência Brasil, o Brasil é o 3° país em que as pessoas passam mais tempo em aplicativos, 3 horas e 45 minutos. O tempo conectado à internet é de 9 h e 14 minutos, nesse quesito estamos em segundo lugar, de acordo com informações da CGI- Brasil. O fenômeno Poltergeist (do alemão Polter: fazer barulho e Geist: fantasma) assombra os brasileiros, presos entre telas virtuais. As taxas de escolarização e desemprego aumentam, assim como o número de influenciadores digitais, Coachings e consumo de psicofármacos.

Antes de falar do anticristo BBB, o filho mais odiado da rede mais assistida e sua promíscua relação com o Poltergeist, é necessário analisar seus concorrentes nas grades de programação das emissoras, especialmente da engessada TV aberta. O SBT possui 3 novelas, breves jornais rasos, muitos programas de auditório propositalmente ruins, como o Programa do Ratinho, que humilha pessoas de classes menos favorecidas e faz propaganda abertamente ao atual elemento que ocupa a presidência do país. Esse mamífero roedor faz as mesmas coisas desde 1998, de segunda à sexta. Além desse, temos outras aberrações que nem valem à pena serem citadas. A rede Record também possui novelas, sendo que a nova novela bíblica fez apologia à ditadura ao ironizar a canção “É Proibido Proibir”. A emissora também apoia abertamente o atual presidente e, sempre que pode, omite em seus telejornais notícias que possam o prejudicar. Seu carro chefe são os programas sensacionalistas que exploram a violência, assim como os da Bandeirantes. A Globo possui 5 novelas, todas com as mesmas fórmulas: empregada que engravida do filho da patroa, moça pobre que é injustiçada e enriquece, galãs estranhos como José Mayer, que em cada novela possui 3 ou 4 amantes e tudo é tratado com normalidade em meio a imagens das praias cariocas. Outras abordam a região Nordeste que só existe na cabeça dos autores desinteressados em pesquisar a cultura real da localidade. Os telejornais da emissora omitem fatos importantes e são totalmente parciais, apostam na confusão bipolar com mensagens de crise e otimismo: Bozo burro, Moro herói, Lula mau, empreendedorismo bom, Agro pop, etc. Não vou me alongar e falar da Rede TV, mas pensem em um SBT que tomou muito LSD. A TV a cabo e os diversos stremmings e canais, apresentam alguma qualidade e produtos considerados como cultura Pop, mas também são entretenimentos alienantes (certamente menos nefastos) e pueris. Há muitos que dizem não assistir novelas ou qualquer programa de TV aberta por ser alienação, no entanto, maratonam séries que possuem enredos similares. O Poltergeist é um fantasma que não escolhe sua vítima. Atire a primeira pedra quem não assistiu La Casa de Papel, Lupin, Breaking Bad, Game of Thrones e não foi aprofundar sua experiência nas redes sociais. Óbvio que existem metáforas por trás de muitos produtos dessa cultura de massa (pop) mais enriquecedoras ou sofisticadas que outras, mas tudo é lenha que serve para alimentar a fogueira do ócio, entretenimento e abstração da realidade. Há pessoas que não consomem nada disso, nem TV aberta, nem TV a cabo, nem redes sociais, estas não são consideradas “ alienadas” ou “sem cultura” - como denomina a inquisição virtual -. Acredito que estas sejam verdadeiras alienígenas e as parabenizo pelo estilo de vida. Minha parabenização é inútil, visto que elas não lerão este texto por ser deveras medíocre.







No atual programa, ao menos metade do elenco é formada por pessoas pretas e metade do elenco é formada por celebridades (pessoas da internet, músicos e atores). A emissora só pensa em multiplicar sua audiência, disfarçando seu oportunismo em representatividade e garimpando talentos da internet. Dessa forma, o Poltergeist faz muito barulho do Twitter à Folha de São Paulo, não há como fugir do fantasma ao menos por três meses. Enquanto se fala da pessoa “cancelada”, em Brasília tudo continua indo para o buraco, mas tudo continuava indo para o buraco antes do programa e havia outras cortinas de fumaça. Quando a edição 21 acabar, talvez surja uma Olimpíada, outro reality, as pessoas talvez irão às ruas por impeachment ou vacina para todos. Então, arrefecerão os ânimos, afinal de contas já será Natal. Segundo Marx, uma das maneiras de começar a sair da alienação é tomar consciência de sua condição. O que aliena você? Não gostou? Me coloca no paredão que o Brasil tá vendo!



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