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FUTEBOÇAL


Dez adolescentes morreram incendiados no Ninho do Urubu, CT do Flamengo, em fevereiro de 2019. Os jovens entre 14 e 17 anos moravam no clube, quase todos pobres e pretos, sonhando em voar alto; Europa ou seleção. O clube - cujo mascote é um urubu- animal de coloração preta e que alimenta-se basicamente de cadáveres - lavou as mãos. O rubro (do latim ruber “vermelho da cor do fogo”) negro não indenizou as famílias e não sofreu maiores penalizações judiciais. É muito difícil a justiça ocorrer quando a empresa movimenta muita grana, temos diversos exemplos no Brasil que não VALE ficar lembrando, pois assim como no futebol, é “bola para frente”. Nossa desgraça é infinita, mas nossa memória é curta. No mesmo ano, o clube carioca foi campeão do torneio Florida Cup, Carioca, Brasileiro, Libertadores e vice campeão mundial. Foi o clube que mais vendeu camisetas no Brasil e o terceiro na América Latina. Ninguém lembrava mais da tragédia acontecida em fevereiro e se ouvia muito o irônico hino do clube “Uma vez flamengo, Flamengo até morrer/ na regata, ele me mata/ me maltrata, me arrebata/ que emoção do coração...Flamengo até morrer eu sou”.

O futebol é capaz de cegar qualquer tipo de percepção da realidade, assim como o fanatismo político ou religioso. Não é nada ingênuo o ditado popular “Política, futebol e religião não se discutem”. Os clubes de futebol não pagam inúmeros impostos, assim como as igrejas, tudo regulamentado pelas leis formuladas pela política; esta, por sua vez, está inserida em quase tudo. Por isso não se discute, uma vez que a santa trindade comanda quase tudo que gera lucro e organiza e entretém as massas em nosso país. Lembro do Neymar fazendo propaganda política em 2014 para o candidato Aécio Neves. Anos depois, o jovem recebe a visita de Bolsonaro no hospital e é apoiado por ele quando é acusado de estupro e agressão em 2019. O menino Ney foi considerado culpado pela justiça espanhola em 2016 por conluio, fraude e sonegação de imposto de renda. No mesmo ano, o atleta de cristo foi campeão olímpico e ostentou uma faixa na cabeça com os dizeres “100% Jesus”, no momento da entrega das medalhas de ouro. Nada pode ser discutido, porém tudo pode ser misturado. A confusão nebulosa que envolve religião, futebol, política, populismo e crimes fica ainda mais inexplicável quando o craque é ovacionado pela mídia. Bom, mas isso não se discute.


Política e futebol não devem se misturar, disse Caio Ribeiro, ex jogador e atual comentarista esportivo, quando um dirigente do São Paulo sugeriu a renúncia de Jair. No entanto, em 2018, quando o Palmeiras sagrou-se campeão brasileiro e permitiu que Bolsonaro erguesse a taça, não lembro de críticas do tal comentarista. O que vi naquela tarde azeda de domingo foi estapafúrdio: jogadores prestando continência (sabe-se que civis não devem prestar continência) ao sujeito que infelizmente seria o próximo presidente. Muitas arminhas feitas com a mão, a mesma mão que fazia sinal da cruz, e gente gritando “mito”. Pensei ser muito triste ser palmeirense e ver esse tanto de bobagem em um dia de título nacional. Felipão, o técnico do clube na ocasião, já havia feito declarações elogiando o ditador Pinochet: “Fez muita coisa boa ... teve alguma retaliaçãozinha aqui e outra ali”. A ditadura no Chile deixou 40 mil mortos. Além do técnico nostálgico do período ditatorial, o time ainda tinha um jogador que era expulso frequentemente por jogadas violentas e desleais e fora de campo dava entrevistas polêmicas "Um pai, quando cobra o filho, às vezes tem que dar uns tapas na bunda. Uns tapinhas, a varada na bunda é bíblico, mas é por amor". Não preciso dizer quem é o ídolo desse atleta.

Comecei a refletir muito sobre os últimos acontecimentos: a CBF corrupta, jogadores assassinos, estupradores e agressores de mulheres. Dirigentes e presidentes de clubes envolvidos em escândalos de corrupção, muitos ocupando cargos políticos, viradas de mesa de alguns clubes, etc. Peguei nojo desse futebol, mas não havia abandonado meu time. Até Renato Portaluppi começar a dar suas opiniões fora do campo esportivo. Óbvio que qualquer um percebe a quilômetros de distância a arrogância em pessoa e o ego estratosférico, contudo, para um gremista isso é irrelevante, pois ele foi o jogador que fez o gol do principal título do clube. Além disso, ganhou diversos títulos importantes como treinador, inclusive uma Libertadores. Exigiu e ganhou uma estátua do clube. Após suas declarações em entrevista ao jornal Folha de São Paulo: "Votei nele. É meu Presidente. Ele e Sérgio Moro são pessoas do bem que querem o bem do Brasil...Se eu tenho um jogador gay, vou sacanear ele de manhã, de tarde e de noite. Eu quero é que ele jogue...A coisa está melhorando com esse governador (Wilson Witzel). Tem que melhorar mais, óbvio. Torço para que ele dê continuidade a esse trabalho", parei de assistir jogos do Grêmio. Não uso mais camiseta do clube e tenho ojeriza à figura de Renato. O problema é que mesmo após Renato sair do clube, ainda sua história e a assombrosa e cafona estátua, permanecerão. Não há como voltar a torcer. Agora sei o que um palmeirense, um flamenguista ou um santista sentem, quando seus administradores inconsequentemente misturam as coisas ou são irresponsáveis. O Grêmio deixou Renato ser um porta voz do caos, com seus discursos homofóbicos e fascistas. O sujeito elogiou a política de Witzel, psicopata que comemora mortes e atira aleatoriamente de dentro de um helicóptero em moradores que o elegeram. O treinador acompanha Bolsonaro em suas sandices, inclusive suas personalidades são muito parecidas pelo caráter megalomaníaco. Além disso, enaltece também a figura oblíqua e oportunista de Moro, o juiz que combinou sentenças via aplicativos de celular e ganhou e perdeu o cargo de ministro. Durante a Pandemia, o tal técnico “cidadão de bem” reivindicou a parada do campeonato gaúcho. Em seguida, o grande líder do movimento foi visto na praia de Copacabana sem máscara e sem medo. A última do cidadão, foi enviar uma camiseta do clube para seu ídolo na política com o número sete (usado por ele quando jogador) e com o nome de Bolsonaro grafado nas costas.


O futebol sempre foi irracional, contudo havia algo mágico e transcendental, que foi se perdendo com a modernização dos estádios (agora arenas), uma elitização ou “europeização” forçada pelo mercado e pela mídia. Esse moderno futebol na realidade é arcaico, pois ignora os arquétipos dos clubes, ou seja, busca um nivelamento e uma uniformização forçada. O Internacional considerado o clube do povo com sua Coreia (parte do anel inferior do estádio com ingressos populares e muita fumaça), o Grêmio imortal e guerreiro, o Corinthians com sua democracia, o Atlético Mineiro Galo forte e brigador, o Flamengo mais querido, entre outros, perderam sua alma ou aura. Hoje todos tem uma arena moderna, miram em sócios e tentam conseguir vender alguma promessa de craque para o futebol europeu. Os clubes estão cada vez mais parecidos com lojas de departamentos e a “ajuda” do VAR corrobora com o gerente da empresa e seus colaboradores. O fanatismo não morreu, pelo contrário, mesmo com todas as tentativas de padronização do futebol, o torcedor continua fiel. Bolsonaro sabe disso. O presidente, que acabou com a corrupção e com o desvio de dinheiro nas cuecas, já usou camisetas de quase todos os clubes do Brasil. O cara é um avatar mal feito, pois é artificial e frágil a sua ideia de ser popular. O máximo que conseguiu foi ser uma figura carnavalizada e superficial do que venha a ser um torcedor. Além da linguagem universal do futebol, faz lives exóticas, ignora entrevistas sérias e brinca nas redes sociais como um adolescente. Fala só para seus seguidores e quando ocorre algum desastre, assim como no futebol, a culpa nunca é sua, sempre é culpa do juiz ou do técnico anterior. Não é em vão que Robinho, contratado pelo Santos, compara-se a Bolsonaro e solta frases como “Infelizmente, existe esse movimento feminista”. Assim como Neymar (que segundo Robinho, o apoia), cita Deus, Jesus e injustiças mil em seu discurso fracassado de defesa. Robinho e Neymar não são santos, não é culpa do Santos, porém acredito que os clubes precisam pensar em suas imagens como instituições que agrupam uma diversidade gigantesca de torcedores. Sendo assim, não cabe mais levar em conta só o talento profissional, mas também valores éticos.


Ainda vejo beleza no futebol. Esses dias vi um gol fantástico do Bragantino contra o São Paulo. Soube que o Felipão perdeu o bigode e foi parar no Cruzeiro e que as emissoras de televisão andam perdendo espaço para as redes sociais na transmissão de jogos. Acompanhei a fala lúcida de Casagrande, achei interessante o movimento das torcidas antifascistas. O que mais gostei mesmo foi da fala de Carol Solberg, a moça do vôlei de praia que deu uma bola dentro. Largar o futebol é mais difícil que deixar de fumar, pois está em todos os lugares e também é lícito. Assim como o fumante, o fanático não observa claramente todas as substâncias que formam o objeto de sua paixão. Eu parei de fumar e minha maior alegria é não saber quem são os laterais ou atacantes do Grêmio.

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