Júnior volta às aulas !


"Nos primeiros dias foi só diversão e alegria, depois de duas semanas minha avó morria. Se debatia sem ar, sem leito hospitalar, a SAMU não chegou a tempo. Eu passei de ano, mas a vovó não vai poder ver meu boletim.”


Assintomáticos e agitados em sua maioria retornam inocentes, os veículos de comunicação já cansaram de falar do vírus e a economia venceu. Crianças, jovens e adultos voltam à escola e o novo normal é a nova mania em tempos de campanha eleitoral.Na calçada em frente ao portão de entrada cumprimentam-se, trocam figurinhas, colocam a máscara no queixo para comer salgadinhos e balas, compartilham fones de ouvido, sentam no chão .Os que tem celulares jogam, enquanto os que não tem chegam bem perto da tela para assistir. Quando o portão abre não há porteiro para controlar a entrada, funcionários da limpeza- que além de limpar coordenam o fluxo- foram demitidos e os que restaram não dão conta de tantos alunos. Assim que toca o sinal para a troca de período os professores precisam se deslocar de uma turma para outra, nesse momento os alunos ganham um mini intervalo de um minuto em média . Há troca de material, circulação pela sala, contato físico, alguns tentam sair para ir ao banheiro, etc. No momento em que a professora de matemática escreve na lousa a fórmula da regra de três e dá as costas para a turma voam bolinhas de papel que alvejam cabeças e tombam no chão e voltam para as mãos. A regra de três foi concluída; papel, chão e mão , resultado igual a covid-19 em circulação.



A escola real não é a que aparece na novela Malhação, em filmes ou nos jornais com alunos uniformizados, distanciados, comportados, olhando para a lousa compenetrados. Quando as visitas saem a agitação é a lei, é normal na infância e juventude. O que não é normal é os governantes esperar organização, pois nem os adultos o fazem; um exemplo claro é a Expointer onde muitos trabalhadores testaram positivo. Cito a Expointer, pois a tradicional feira agropecuária ocorre no mesmo período em que a prefeitura e o estado querem reabrir as escolas.

As escolas e creches municipais da cidade estão localizadas em regiões periféricas nas quais falta saneamento básico, infraestrutura, linhas de ônibus, luz elétrica, pavimentação, segurança entre outras muitas coisas. Na região da escola onde trabalho falta água toda semana, há somente uma linha de ônibus e o horário em que passam os coletivos é sempre diferente do que aparece na tabela; muitas famílias não possuem luz elétrica, tampouco acesso a internet. Os alunos do EJA chegam para às aulas do período da noite após suas jornadas de trabalho e sentam na mesma classe utilizada pelos alunos do dia, alimantam -se no mesmo refeitório, caso haja alguma falha na limpeza por falta de material , água ou funcionário as chances são grandes de contaminação . Além disso, há somente dois banheiros coletivos e um para professores e funcionários. A comunidade participou de uma enquete e 85% dos pais e responsáveis foram contra a volta das aulas presenciais, pois a maioria das famílias possui alguém no grupo de risco. A reunião do conselho escolar que engloba pais, alunos, professores e funcionários foi unânime quanto ao não retorno diante da falta de condições e pelas normas estabelecidas pela prefeitura, nas quais consta inclusive a não obrigatoriedade no uso de máscara para alunos menores de 11 anos.

As comunidades de Porto Alegre sabem que o motivo do retorno às aulas presenciais é eleitoreiro e que o vírus continua forte nas regiões de população mais vulnerável. A aparente normalidade, o maldito “Novo Normal” só existe nos bairros não-periféricos nos quais quem trabalha entregando produtos Delivery, atendendo, transportando, limpando, cozinhando são meus alunos e os pais deles. Para que exista o novo normal o povo real paga as consequências. A comunidade possui um saber empírico que o restante da população só adquire, quando o adquire, em teoria nos livros. A vila sabe todo o mal da cidade e a falsa felicidade da elite, mas está muito ocupada tentando sobreviver. Quando , em alguns momentos, consegue ganhar voz é a verdade em estado bruto. Por isso tentam silenciá-la e marginalizá-la, porém quando chega o período eleitoral o intuito é maquiavelicamente agradá-la com promessas .Eles sabem que ali não há alienados, só pessoas sem chance ou instrução, mas o morador da comunidade sabe que o candidato tenta tirar vantagem levando em conta a sua condição. O prefeito já foi na escola onde trabalho e tentou dançar “despacito”, foi vaiado e xingado pela população, estava blindado por muitos CC’s, guarda municipal e brigada militar. A comunidade nunca viu tanta viatura, carro de som e EPTC fechando a rua. Além desse outros senhores aparecerão ali com seus ternos bem passados, maquiados e penteados, arregaçarão as mangas literalmente , de forma comovente segurarão crianças no colo e tentarão usar gírias e dizer que são “gente como a gente”. O povo não caí e até ri, pois sabe que o sujeito só retornará ali para fazer o mesmo papel patético de prometer e pedir.



A prefeitura disponibilizou um pacote de dados de 100MB/mês (quantidade irrisória, quando se leva em conta que um aluno precisa ter acesso a conteúdos variados) . Para se ter uma ideia um vídeo de qualidade razoável 380p, por exemplo, consome 50MB. Somente no mês de setembro foi liberada essa gratuidade. Além disso, a prefeitura disponibilizou uma plataforma EAD para aulas remotas contratada de um empresa, porém os alunos da rede em sua grande maioria não possuem Smartphope. A exigência para o retorno agora é pautada na figura do aluno que será prejudicado cognitivamente, porém tal preocupação só surge em outubro, curiosamente mês em que se inicia a campanha eleitoral. As escolas particulares possuem autonomia, porém as públicas são obrigadas ao retorno. Para uns opção , para outros obrigação ; algo bem parecido grosso modo com o que ocorre entre periferia e Elite . Se o morador do Mont’Serrat ou do Moinhos de Vento contrair o vírus será coberto por um bom plano de saúde , caso não aceite que seus filhos tenham aulas presenciais poderá ter aulas remotas com internet na velociade da luz, livros didáticos , tutores online. O morador da comunidade, não precisarei falar , não é?

Júnior pode voltar às aulas e sentar-se em um parque rodeado de crianças loiras, como fez em campanhas publicitárias anteriores, porém a maior parte da população sabe que as aglomerações estão tirando vidas. Escolas abertas , mapas laranjas e , em breve, amarelos, shoppings e parques abertos nada disso é real, o povo sabe o que é racional, manter seus familiares longe da morte enquanto podem. Escolas fechadas, vidas preservadas.


O Selo Junte e surte é uma iniciativa do grupo fictício Literasurta. Leia, surte e quem sabe um dia , após juntar 60 selos, receba nossos brindes deprês. Kits de sobremesa, canecas, ventiladores ou alicates; não se sabe o que poderá ser. Então,meu jovem, não perca mais tempo!


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