Manifesto Antropotrágico : do Jeitinho ao JEITÃO



O prólogo da peça: Ópera do Malandro, assim como a primeira faixa do disco homônimo de Chico Buarque, sintetizam muito bem o famigerado “jeitinho brasileiro”. João Alegre, uma das personagens da peça, Canta “O Malandro” batucando em uma caixinha de fósforos, a medida que a canção vai se desenvolvendo outros instrumentos são incorporados. A simplória caixinha de fósforos ganha o acompanhamento de uma orquestra, dando ritmo e corpo à música que vai “crescendo” e ficando cada vez mais complexa; assim como as relações de causalidade entre as personagens. O texto narra a trajetória burocrática de um pequeno delito.

“O malandro/Na dureza. Senta à mesa/Do café. Bebe um gole/De cachaça. Acha graça/E dá no pé. O garçom/No prejuízo. Sem sorriso/Sem freguês. De passagem/Pela caixa. Dá uma baixa/No português. O galego/Acha estranho. Que o seu ganho/Tá um horror. Pega o lápis/Soma os canos. Passa os danos/Pro distribuidor...”


A personagem denominada pelo adjetivo de malandro sai de um bar sem pagar a sua bebida, o garçom para não sofrer desconto não registra o consumo, na sequência o dono do bar passa o prejuízo para o distribuidor. A teia se desenrola até chegar ao Banco do Brasil e as relações econômicas exteriores com os Estados Unidos “os ianques”. Constitui-se uma cadeia organizada para que haja um superfaturamento econômico na qual o prejuízo é amplificado e serve de justificativa para aumentar o lucro. Na segunda parte da narrativa tal prejuízo é passado de forma sutil, agora em processo inverso e quem sofre o revés é o malandro: “O garçom vê/Um malandro/ Sai gritando/Pega ladrão/ E o malandro Autuado É julgado e condenado culpado Pela situação”. Nessa passagem ocorre uma situação ambígua, quanto à moral punitiva : o crime não compensa; Ou de desigualdade: a corda sempre arrebenta para lado mais fraco. A ambiguidade está na noção de justiça, ou seja, o que é justo? A exploração comercial, muitas vezes exagerada, que beneficia aos que detém o capital ; ou sujeito à margem que não pagou sua cachaça e termina sofrendo um revés gigantesco : “autuado, julgado e condenado culpado”? A hipérbole caricata da canção não é utópica quando se trata de relações comerciais exploratórias e a noção de justiça, especialmente no Brasil, uma vez que a justiça quase sempre age a favor da instituições e os cidadãos são colocados em segundo plano. Isso seria retratado de forma magistral na canção “Hino de Duran”, segunda do álbum Ópera do Malandro. O malandro de Chico geralmente é encurralado e esmagado pelo sistema, isso é bastante significativo, uma vez que ele representa uma classe social marginalizada: traficantes, prostitutas, cafetões, desempregados e desvalidos em geral. A malandragem relacionada a infrações leves e pequenos delitos à informalidade é reprimida com veemência pela sociedade. O “virar-se, dar um jeito para sobreviver” comum nas classes menos favorecidas, ganha holofotes de crime hediondo. Esbarra em uma ética torpe na qual o princípio fundamental é o mesmo que se emprega hoje, não levando em conta as questões socioeconômicas, ignorando a desigualdade e empunhando a bandeira encardida da meritocracia. “Viu? Quem mandou não estudar? Querem mamar nas tetas do governo!, Por que não trabalham?” Como se houvesse emprego ou chance para todos. O vendedor ambulante que não paga imposto e recebe bolsa família, o guardador de carros, a dona de casa chefe de família que vende produtos falsificados, entre outros inúmeros casos são os grandes fraudadores da união, ganhando o selo lesa-pátria. Por outro lado grandes sonegadores de impostos ou donos de empresas de fachada , por exemplo, tendem a ter seus delitos dissolvidos e invisibilizados. Isso se explica pelo fato da elite financeira e suas ramificações estarem entrelaçadas em todas as instituições. Nesses casos não existe o malandro, a alcunha de doutor é mais corriqueira, mesmo que não possua esta formação. Para esses o jeitinho brasileiro, espécie de raiz de uma suposta malandragem, funciona como um eufemismo. Não é roubo, e sim desvio de verba; o filho do senador não é traficante; mesmo pego em um helicoca já possui habeas Corpus ad Infinitum. Foi construída ,de maneira maquiavélica, uma espécie de romantização para que todo e qualquer membro da aristocracia tupiniquim não fosse confundido com o malandro pé rapado. Assim, houve essa generalização que forçosamente acabou sendo incrustada como uma característica de todo brasileiro. Todos devem levar vantagem independente de classe social, essa grosseira afirmação foi pedagogicamente introduzida como subterfúgio para justificar as maiores atrocidades. Desde o pedido de Pero Vaz de Caminha para que libertassem seu genro preso por assalto e agressão, bem como as leis abolicionistas estapafúrdias e injustas com a lei dos sexagenários ; até para atitudes infantis como o “furo” na fila. Todos que aqui nascem logo são vacinados com essa ladainha da desonestidade hereditária e incurável, ou seja, já é malandro e “quer se dar bem”. A invasão europeia e portuguesa que trouxe o manual do jeitinho debaixo do braço não possui nenhuma responsabilidade, pelo contrário. A culpa de nossa malandragem, preguiça e mau-caratismo é sempre dos povos africanos e indígenas, no máximo da miscigenação, nunca da Europa ou da “elite” que ainda se acha europeia. Os Schmidt, os Rossi, Os Mallet ou os kowalski, caso tenham o tal jeitinho é devido à influência dos Silva, dos Sousa ou dos Oliveira. Fomos engolindo o conto de que todos são iguais, salvo se não for branco, rico e do sexo masculino, nesse caso é melhor uma revisão minuciosa. Assim como a Revolução Dos Bichos de George Orwel “Os animais são são todos iguais, mas uns são mais iguais que outros”. Sempre se dá um jeito, quando o cidadão é branco e rico, nesse caso o jeitinho torna-se até um predicado charmoso que remete a esperteza e astúcia. Levar vantagem e ser esperto é charme puro e, longe de ser pejorativo, torna-se algo desejável como a desastrosa Lei de Gerson: “leve vantagem você também”. As regalias acabam sendo moldadas pelo poder; a ganância é sublimada enquanto a necessidade é punida. Um grande latifundiário, padre, juiz ou deputado, por exemplo, que cometa atos ilícitos, geralmente, ganham uma segunda chance ou tem suas punições abrandadas. O mesmo delito cometido por alguém que seja um “cidadão comum”, ou seja, que não pertença ou tenha parentesco ao tal grupo de poderosos é punido com celeridade e de forma exemplar. A maneira de ascensão e, até de sobrevivência, de quem não faz parte deste seleto e injusto grupo, muitas vezes, passa pelo servilismo a esta elite. Além disso, a exposição, delação e o prejulgamento do jeitinho cometido por alguém que não possui um “pedigree” (palavra tão cafona, quanto os que a proferem com orgulho no olhar ), faz com que o próprio cagueta sinta-se o detentor da ética. Tal atitude nada mais é que um jeitinho de ser aceito e parecer mais europeu, ético, civilizado. Contudo, o delator faz papel de um reles serviçal manipulado pelos verdadeiros herdeiros do jeitinho.



A cultura do jeitinho, apesar de nefasta no campo político e social, aumentando nossas desigualdades e injustiças, incorpora traços marcantes na arte e na cultura. Elementos como: criatividade, desenvoltura, obstinação e resiliência acabam sendo intrínsecos a nosso povo. Essa representação fica latente na literatura, por exemplo, ao romper com padrões de idealização europeus. Em Memórias de um Sargento, de Milícias de Manuel Antônio de Almeida, é aprofundada a figura do malandro. A obra foge dos contornos estabelecidos pelo pícaro espanhol, uma vez que este, apesar de possuir características do malandro, sempre acaba sofrendo, castigado ou se arrepende ao final de sua trajetória. Leonardo Pataca, personagem principal de Memórias, ao contrário do pícaro ou de toda literatura romântica da época, não possui juízo de valor ,ou seja, não aprende com seus erros e, mesmo assim, se dá bem no final. Os demais personagens do romance possuem as mesmas características do protagonista, porém veladas, o que torna o romance um espelho da sociedade através dos pares antiéticos: lícito e ilícito, ordem e desordem. Isso é brilhantemente destrinchado em Dialética da malandragem, ensaio de Antônio Cândido, no qual sintetiza essa saída pela tangente: “As formas espontâneas da sociabilidade atuaram como um desafogo e por isso abrandaram os choques entre norma e conduta, tornando menos dramáticos os conflitos de consciência.”. Esse tal jeitinho é ainda mais carregado de simbolismos na figura de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade. O romance de forma inovadora, sintetiza inúmeros elementos como a carnavalização, esteriotipização e sátira mordaz; tanto como retrato do povo, quanto à denúncia de processos colonialistas e exploratórios que sofremos. As diversas variações do tema produziram obras fundamentais no cinema, teatro, artes visuais, música sendo um Oásis no deserto marginalizado do jeitinho. A astúcia em ver uma mulher de biquíni entrando no mar, inspirados por algumas doses de álcool, fez com que, malandramente, a Bossa Nova de Tom Jobim e Vinícius de Moraes ganhasse o mundo com a canção: Garota de Ipanema. O Samba misturado com o Jazz, a voz baixinha a poesia colocada com sutil erotismo. As vertentes do samba e da MPB; em certo momento alicerçadas no jeito com o qual o brasileiro resolvia seus problemas sociais com desenvoltura, enriqueceu culturalmente o país e ajudou a compor um orgulho avesso ao complexo de vira-lata. A pátria do jeitinho, com jeitinho, vai ganhando relevância em praticamente todos os âmbitos culturais e artísticos, driblando censuras e rompendo com falsos conceitos ultrapassados .

“Existiria a verdade, Verdade que ninguém vê, Se todos fossem no mundo iguais a você.”. Desculpe Vinícius ,mas “o que falta nessa cidade?...” Verdade, Seu Boca do Inferno. Se ficássemos só na arte, mas o problema é que a vida imita a arte, ou a arte imita a vida. Não importa resolver esse paradoxo, mas sim o da nossa rica miséria fruto da desigualdade. Os problemas impostos pelo jeitinho são de cunho estrutural, baseados nos pilares políticos, sociais, morais e religiosos. A definição do homem cordial ,de Sérgio Buarque de Holanda, é importantíssima para entendermos as raízes desse jeitinho. O patriarcalismo sedimentado que corrobora com a difícil separação entre o público e o privado, a forçosa intimidade artificial colocada como virtude e influente nas relações sociais, comerciais e políticas. Até o próprio uso de termos da língua como o abuso dos diminutivos a fim de estreitar laços afetivos, entre outros elementos; compõem o cerne de nossa característica mais peculiar. O homem cordial é aquele sujeito que age com o coração no âmbito geral :sincero, generoso, afetuoso, empático, porém tudo isso sendo usado como uma máscara para cativar e conquistar. Esse tal homem cordial ao contrário, mas não de forma contraditória, age por impulsos menos nobres no âmbito particular, como um animal de sangue quente, uma vez que é agressivo, voraz e selvagem sem sua máscara social. É comum visualizar exemplos típicos em nossa sociedade desde o genro comportado e simpático na frente dos sogros, mas que agride namorada por motivo fútil; até o político que distribui sorrisos e cestas básicas antes das eleições e, após eleito, corta verbas de programas sociais. Ao apontar para essas situações de modus operandi, não só as exemplificadas no conceito de Sérgio Buarque de Holanda, como também as atuais, é possível analisar a gravidade do estrago. A forçação de amizade, informalidade : “Pode deixar comigo que conheço alguém lá de dentro”, “Quebra essa pra mim, todo mundo faz isso aqui na empresa, depois a gente toma uma cervejinha” chegaram a níveis estratosféricos. Empreiteiras e governos formando casais. Juízes, promotores e políticos formando trisais. Igrejas, partidos políticos, organizações paramilitares, militares, veículos de comunicação e empresários formando bacanais, que fariam com que Baco ficasse ruborizado. A generalização e o aperfeiçoamento do jeitinho conseguem blindar a elite ao manter suas regalias e aumentar o poço da miséria, que em 2020 está encharcado de ilusão, covid, fome e sangue.



O que não tem mais jeito de dissimular...


O brasileiro é um povo cordial, pacífico, preguiçoso, acolhedor, satisfeito com a própria vida e otimista, segundo a barra de pesquisa do Google .Parece bem significativa essa pequena e superficial pesquisa, uma vez que esperava encontrar termos como alegre, batalhador e sofrido, pois, estes termos estão no imaginário coletivo. A alegria, o sofrimento e as lutas forjaram a nação e os traços destas características são amplamente perceptíveis em todas as células do país. Os predicados apontados na pesquisa mostram quase que uma “animalização” do povo, domesticado feito um cachorrinho: “Pode passar a mão, ele não morde. Come a ração dele e vai dormir e sempre abana o rabo quando chega visita”. Onde está o Brasil que canta e é feliz? Que não se entrega não? Quando chegará a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor? Ary Barroso, Novos Baianos, João Gilberto e seu “mulato inzoneiro”; estão todos errados ou o povo virou este animal pacífico? ACABOU, PORRA! MINHA VONTADE É ENCHER TUA BOCA DE PORRADA. Não é possível definir o ponto exato de mutação, mas o tal jeitinho está cada vez mais em desuso, a onda agora é o JEITÃO. A abertura foi lenta , gradual e segura , porém sem uma árvore genealógica definida. Não existe pai ou mãe do jeitão, e sim uma atualização de software do jeitinho.

Os trapalhões e o Bozo ( as personagens infantis , não os políticos) invadiram a casa de todas as crianças em uma época sem TV por assinatura nem internet. Era um humor aparentemente ingênuo, o Bozo brasileiro era diferente, pois introduziu outros personagens como Papai Papudo e Vovó Mafalda. Além disso, lia cartas de telespectadores, atendia ligações telefônicas, realizava brincadeiras e distribuía brinquedos. Era praticamente uma versão infantil dos programas de auditório do Sílvio Santos. Havia vários atores que faziam o papel do palhaço, já que o programa passou a ocupar a manhã e tarde da programação. O Bozo brasileiro era workaholic, diferente do Bozo de 2020, enquanto em outros países ele foi um simples palhaço, no Brasil tornou-se um mito por conta do jeito exagerado. Os trapalhões apresentavam um humor para todas idades e, de forma sutil, explorava temas que hoje em dia o seriam inaceitáveis: machismo, racismo, homofobia, xenofobia, por exemplo. Didi era o estereótipo do homem do sertão que de forma arbitrária quase sempre vencia através da malandragem, assim como João Grilo, personagem do Auto da Compadecida ,de Ariano Suassuna . Os esquetes eram sempre parecidos, um trapalhão ludibria o outro que, em seguida sacaneia o terceiro, mas todos esbarram na astúcia cearense de Didi Mocó. Didi também sofria empulhações xenofóbicas por ser nordestino. Zacarias era infantilizado, ingênuo e um tanto afeminado. Dedé também era questionado quanto a sua sexualidade pelos outros trapalhões e fazia o papel do sensato ou correto eticamente “Mané” que sempre é sacaneado pelo malandro Didi. Mussum era estigmatizado por seu modo de falar através de gírias, neologismos e palavras com terminações populares como “mé”, ao invés de mel, que fazia alusão à população menos escolarizada. Além disso, as piadas referentes ao alcoolismo e de cunho racista eram constantes. O programa humorístico Os Trapalhões, assim como tantos outros, passou desapercebido mesmo sendo politicamente incorreto, por conta do jeitinho “Não seja bobo, é só uma piada. Onde está seu senso de humor?”. Utilizando a mesma maquiagem pesada do humor vieram os porteiros, empregadas domésticas, desempregados, pobres e com jeitinho todo povo brasileiro pertencente às classes menos favorecidas estava representado em sua desgraça. O brasileiro ridicularizado adapta-se, afinal é só uma piada, e termina rindo de si mesmo tímido e com um sorriso amarelo para não contrariar o senso comum. As barbaridades veladas, disfarçadas de humor vão sendo cristalizadas no interior de quem as sofre e o jeito é ir aceitando, já que somos pacíficos. “Eu tenho horror à pobre!” Bradava Caco Antibes no finado Sai de Baixo. O humor rude e lacrador que diz verdades na cara com seus bordões fáceis e estúpidos consagra-se. Não há mais preconceitos velados, os atores agora gritam, pois, a graça está na truculência. EEEEEPA ! Bicha não! De Vera Verão, personagem de A Praça é Nossa ; “vem cá, eu te conheço?” E “tô pagando” de personagens do extinto Zorra Total são exemplos dessa lacração. O humor agora é desafiar, bater de frente. A extrapolação surge com o deplorável programa Pânico na TV que contribui para a formação de milhares de millennials que perceberam na tosquice e grosseria extrema uma maneira de adquirir fama e dinheiro. Esse jeitão, apesar de parecer inofensivo e engraçado, influencia grande parcela da sociedade de forma didática: “seja assim, chute o balde , não leve desaforos para casa, vingue-se, lacre!”.


O sistema entende essa mudança os comerciais gritam : “Quer pagar quanto?”, “O gerente ficou maluco!”. Propagandas de cartão de crédito usam tantas cores, sons que o produto mais parece uma micareta consumista . Bancos , farmácias , escolas de cursos de idioma todos fazem o mesmo. Nada mais condizente com o consumismo que a agressão visual e sonora do jeitão. O jornalismo faz o mesmo , uma grande parte dos apresentadores de telejornais são tão histriônicos quanto Bozo , o palhaço. “Aqui tem café no bule, Me dê imagens, Põe na tela” não passam de patéticos bordões que reforçam o patriarcalismo e a imposição pela truculência. As frases de Datena e de outros que seguem a mesma fórmula geralmente são ditas no imperativo, tal como se falasse com um subalterno ou a uma criança; os bordões de Ratinho remetem a ditos interioranos e prosaicos comuns na maioria do Brasil. A intenção de reforçar um vínculo de confiança e prezar pela justiça e a ordem. Além disso, abusam dos gestuais, arregalam os olhos, franzem a testa, estufam o peito como bons galos de briga, evocam palavrões leves que não desagreguem a família do cidadão de bem que os assistem, batem em suas bancadas com objetos diversos. Essa carnavalização extrema nesse tipo de jornalismo ou em outros tipos de entretenimento de massa é bem-sucedida, pois, acaba remetendo ao receptor arquétipos reconfortantes. O pai protetor e justo nas figuras de Ratinho e Datena , por exemplo ; o filho “bom moço”, prestativo e solidário como Luciano Hulk e Rodrigo Faro. Esses últimos não tão espalhafatosos, ainda usando o seu jeitão em pele de cordeiro, gel e sapatênis.



Ah, jeito triste de ter você...



A música caipira ou sertaneja, nascida do interior desse brasilzão de meu deus, foi extremamente importante na consolidação de nossa essência telúrica. Algo que não foi de todo original, se pegarmos exemplos da literatura ou de outros movimentos artísticos que pretendiam definir nosso vínculo com esta terra. A grande diferença estava em não querer definir padrões e incorporar teorias transplantadas como fizeram outros movimentos que foram influentes somente em suas épocas, talvez esse tenha sido o motivo do sucesso. A temática e a linguagem simples, além do contexto sócio histórico propício- êxodo rural e expansão das cidades- fizeram com que tudo se encaixasse. O homem do campo, agora na cidade, sente saudade de sua terra, da simplicidade das pessoas e relações harmoniosas e bucólicas; é exatamente disso que as canções tratam. Fogão de lenha, tristeza do Jeca e no Rancho Fundo (que apesar de ser um samba canção de Lamartine Babo e Ary Barroso , ficou popular com Chitãozinho e Xororó), por exemplo, sintetizam essa saudade. Com jeitinho outras temáticas foram incorporadas a desilusão com a pessoa amada, o medo de sofrer, o abandono amoroso, contrabalanceados com a irreverência do matuto malandro. Então deram um jeito de “universitalizar” a coisa, a universidade fez mal aos sertanejos. As canções contraditoriamente se tornaram grosseiras com a introdução do ensino superior. A temática principal é o abuso de álcool, a promiscuidade e o tocar o foda-se, ou seja, uma libertação ao sofrimento das relações amorosas malsucedidas: “E daí? Se eu quiser farrear tomar todas num bar, sair pra namorar. O que é que tem? Foi você quem falou que a paixão acabou que eu me lembre eu não sou de ninguém”. O tom desafiador e impositivo não é só uma característica do sertanejo universitário, mas também do feminejo. A versão feminina do jeitão também enche a cara e briga: “Não sei se dou na cara dela ou bato em você/mas eu não vim atrapalhar sua noite de prazer/ E pra ajudar a pagar a dama que lhes satisfaz/ toma aqui os cinquenta reais.”. A singela canção da cantora Naiara Azevedo retrata uma traição e desilusão temática comum ao sertanejo, porém ela não sofre calada. O Eu Lírico se vinga, ironiza a situação e sai por cima apesar de traída, ou seja, “lacra” e empodera-se, do mesmo modo que o agroboy afundado em liberdade e farras etílicas da canção da dupla Guilherme e Santiago. Não foi só na temática que as canções mudaram. O uso dos falsetes e dos vibratos diafragmáticos foram substituídos por vocais guturais e frases no meio da canção como um a espécie de anuncio publicitário, autopromoção ; quando não incorporados na própria letra : “Tchê tcherere tchê tchê... Gustavo Lima e você”. O uso do diminutivo na música popular para mascarar a malícia e o duplo sentido também caiu por terra. Antes tínhamos : “Bota a mão no joelho / dá uma abaixadinha/ vai mexendo gostoso, balançando a bundinha”; agora temos “Tu pediu pra eu botar/ E eu boto com pressão/Então vai já, se prepara/ Na raba toma tapão.” MC Niack artista de: “Na raba toma tapão” e o grupo É o Tchan!, são populares pelos mesmos motivos: a objetificação da mulher; o que os diferencia é o jeitão e o jeitinho . É o Tchan!, apesar da temática exageradamente erotizada, não passaria de um grupo de canções infantis em 2020, frente a artistas com temáticas similares. A temática agressiva e imperativa combinada com a maneira estrambólica de expressão não são predicados apenas dos sertanejos universitários, funk ou qualquer outro gênero popular de massa . A religião apropria-se disso com demasiada competência. A mesma informalidade da canção está na fala do pastor que também faz uso do gutural, vibrato e falsete para louvar ao senhor , expulsar os demônios e atrair o fiel. Sementes de feijões mágicos e álcool gel abençoado que curam covid, depressão, câncer . Os católicos com sua fala morna, seus santos pálidos, seus padres celibatários e suas igrejas fora das periferias, perdem cada vez mais fiéis. Segundo o IBGE, em 1980, os evangélicos eram 6,6 %, em 2010 eram 22,2% da população. Algumas análises, como a do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves: diz ser possível que entre 10 ou 15 anos o Brasil não tenha mais a maioria católica. O grito Deus ou Jesus que soar mais alto atraí mais fiéis, se o grito vier das emissoras de televisão ,da câmara e do senado ajuda muito. Caso o pastor tenha um jeito fanfarrão, confiável e ao mesmo tempo paternal, uma simbiose de Ratinho misturado com Luciano Hulk ( imaginem o nariz), poderá até colocar gente de Deus no governo e consertar essa nação descrente. A bancada evangélica na câmara federal é de 38%, 195 dos 513, incluindo Flordelis que não será presa, por que temos um jeitão todo nosso de imunizar gente de bem.



A união de Flordelis com seu “conje” /filho/genro explica muito as relações, mesmo que pareçam estapafúrdias, que ligam dinheiro, poder e religiosidade. A religião é mera peça decorativa que oculta a ambição, em vários casos conhecidos: Flordelis, João de Deus, Padre Robson, Pastor Everaldo. Esses, além de muitos por aí, fantasiaram-se com as alegorias religiosas para obter sucesso em suas jornadas de fé e salvação. Dirão que foi o demônio ou usarão de alguma das milhares de teorias da conspiração existentes, mas nunca assumirão seus crimes. Assumir é invalidar a fé do que crê e quebrar a própria máquina do poder, além, é claro, de renunciar ao Jeitão. De mesma forma são as relações promíscuas entre legislativo, executivo, judiciário ,polícia, igreja, milícia, veículos de comunicação e pastelaria do beiçola. A pastelaria do beiçola parece ser a mais lícita dessas instituições, se fosse loja de chocolate poderíamos desconfiar. O sincretismo religioso, sexual e político flordelisiano já existia antes dela, como o bolsonarismo já existia antes dele. A virtude desprezível dessa gente toda foi patentear a negação dos tropeços éticos com o mesmo ímpeto bonachão, como se fossem vitórias. Jeitão, minimização ou ignorâncias das atrocidades e fé no gado são ingredientes da fórmula perfeita para manter e ampliar território. Muita gente dita de bem tirou a camiseta mofada do armário e assumiu também sua sigla LGBTQI- (Laranjas, Golpistas, Bolsolavistas, Terraplanistas, QI negativo). Não há como dissecar integralmente o raciocínio fundador dessa epidemia, não há tratamento, vacina ou medicamento com posologia adequada. A própria sigla não comporta tanta diversidade, contudo o jeitão conservador e agressivo os une. O pensamento dos LGBTQI- é pragmático acima de tudo e generalizante acima de todos. A filosofia é bem simples: todo mundo que duvida de seus ícones morais e lacradores é comunista e globalista. O ministro da cidadania, que já perambulou por todos os cargos possíveis e imagináveis desde o governo Temer, assumiu que fez caixa dois. Os adeptos da seita negam, pois o ministro não é comunista e se “por a caso” fez o tal roubo foi por um “bem maior”: a luta contra o comunismo. Sempre que são indagados repetem palavras de ordem: Comunista, Luladrão, PT, conspiração globalista, satanismo, lei Rouanet, Cuba, Venezuela. No caso do ministro que tem nome de marca de automóvel e sobrenome que lembra marca de chuveiro, tudo foi resolvido de maneira rápida e limpa. O tal sujeito simplesmente assumiu e devolveu parte do dinheiro, assim entrou definitivamente para o cânone Lgbtqi-ista : “Roubou, mas foi honesto. Até pediu desculpas”. A contradição é outra bandeira que sempre está em riste para os adeptos do movimento. Armas e bíblias unificadas em grupos de whatsapp para defender nossas crianças da mamadeira de piroca fake. A seleção do time comporta diversas excentricidades: ministra dos direitos humanos contra liberdades e a favor de prisão de ministros, ministros da cultura adoradores de Hitler- substituição Pum do palhaço- nova substituição ex galã de malhação figurante, ministro do meio ambiente a favor do desmatamento, além de um “imprecionante” ministro da educação que quer colocar os vagabundos do STF na cadeia. Não é possível esquecer do “Conje”, que antes de assumir o jeitão deu um jeitinho de combinar sentenças via aplicativos de celular, mais um exemplo do pragmatismo generalizante ortodoxo que por um lapso de segundo quase rachou a sigla. Em breve o senhor do posto de gasolina, aquele que não gosta que empregadas domésticas viagem de avião, irá rachá-la ou ser fritado tal qual são Lourenço, porém de santo só a expressão cansada. A lista é interminável, assim como os santos da igreja católica, aparecem até anjos com chácaras, QueirozBins, Nossa senhora dos cheques milagrosos; além dos três zeros à extrema-direita :São rachadão das causas impossíveis, São Embaixador do hambúrguer do senhor , São tuiteiro do ódio de meu deus. Em janeiro de 2019, o tal jeitão cravou sua bandeira simbólica no planalto central. Meses depois um segurança de supermercado matou um jovem asfixiado ao imobilizá-lo. O assassino pagou uma multa e responde em liberdade. Militares fuzilam um suspeito com oitenta tiros, o músico assassinado estava indo para um chá de bebê com sua família. Uma menina de oito anos é atingida nas costas dentro de uma kombi, quando voltava da igreja com seu avô. Todos mortos pelos homens da lei e ordem. Todos pretos ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres, como a canção de Caetano Veloso. O Haiti é aqui e o homem que subiu a rampa- com seu filho branco, que não é mais leve que sete arrobas, sentado no banco do carona - autorizou tudo isso com o jeitão estúpido e maquiavélico. Índios, negros, pobres, não são cidadãos de bem. Mulher é fraquejada e nem todas merecem ser estupradas. A gayzisse não é de deus. Tem que metralhar a petralhada.

O brasileiro incorpora o jeitão, de seus líderes e ídolos , porque agora é no grito e na arma, na marra, a mamata acabou. Humilhar entregador por este não ser nem rico, nem branco, liberado! Já se pode fazer festa clandestina durante a pandemia: “Foda-se a vida”, e postar nas redes sociais. Depois é só por a culpa no álcool, como fez o morador de Alphaville ao agredir verbalmente e resistir à prisão. Rasgar multas e ignorar leis também pode, mas só se for desembargador. E não precisa usar máscara nenhuma cidadão; cidadão não, engenheiro civil formado melhor do que você. Acabou, porra! Não existe mais jeitinho. Desprazer, eu sou o Jeitão.





O jeito



O jeito é a solução , dar um jeito, como o brasileiro sempre fez. O contragolpe ao jeitão está vindo , mesmo que em doses homeopáticas, porém é um processo antropomágico. A magia consiste em transformar nossas infindáveis tragédias diárias em lutas e esperança, mas a esperança não vem do mar nem das antenas de tv. Ela surge de um futuro turvo, porém promissor no qual não será aceita mais a violência, a desigualdade e a intolerância. O jeitão ajudou a empoderar a periferia, os movimentos sociais, a classe trabalhadora e o indivíduo, que antes parecia sozinho, agora organiza-se pelas redes e grupos. Algumas questões que antes eram consideradas um Tabu , já são discutidas e tornam-se populares, como o feminicídio ou a discriminação racial- haverá os que julgam mimimi, porém em breve eles serão silenciados por carregar um discurso tão ultrapassado como as piadas dos antigos programas de humor - abordadas amplamente na comunicação de massa. A desconstrução de padrões, que antes pareciam intangíveis e enraizados, está ocorrendo no mundo todo e nisso o brasileiro leva vantagem. Nosso jeito criativo e nossa vertente antropofágica assimilará as mudanças necessárias de forma ímpar como uma bossa nova ou um carnaval fora de época, como no samba de Gonzaguinha “Eu acredito é na rapaziada/ que segue em frente e segura o rojão/ eu ponho fé é na fé da moçada/ que não foge da fera e enfrenta o leão”. Se o Brasil é realmente o país do futuro só nos resta a esperança e a luta, pois o futuro não suportará mais as barbaridades que estão ocorrendo em nosso país.




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