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Meu Amigo Zumbi


Eles sempre colocam loiras, eu nunca lembro o nome delas. Da que vende pílulas é Aracy, eu acho. O tal produto que a senhora vende com entusiasmo cura quase tudo. O som e a imagem começaram a ficar estranhos, mexi nos fios e dei alguns tapas no televisor e a tela ficou esverdeada. Desliguei o aparelho da tomada, liguei novamente, as senhoras loiras se mordiam. Arregalavam os olhos e espumavam. Aracy não falava mais das pílulas que curam, somente tremia, urrava e mordia a colega de palco. O sangue espirra pelas veias velhas da apresentadora, parece uma briga de animais selvagens. Uma delas deu um bote no câmera e o programa saiu do ar. Achei que fosse uma daquelas pegadinhas mal feitas, porém, todos os canais estavam fora do ar e a porcaria da internet também não funcionava.

Sentei em frente à janela, observei o silêncio oceânico e me conformei, sabia que um dia isso iria acontecer. Ignorar ou lutar, só há essas duas opções e as duas são cruéis. A ignorância não deixa de ser uma forma de escolher o inevitável e matar a consciência. Então decidi lutar, mesmo não sabendo como fazer uma luta gigantesca como essa.

Sem cérebro, sem vida e com o objetivo de destruir. Eles são a maioria, muitos por descuido ou ignorância acabaram caindo nessa armadilha. Não há mais volta. Tenho esperança em alguma vacina para o indivíduo contaminado, mas não para o coletivo arrasado pela barbárie. Volto a observar o silêncio e só enxergo uma melancolia mórbida. Tudo cheira a morte e selvageria. Se fossem só as apresentadoras de televisão ainda poderíamos nos livrar, mas os taxistas, médicos, porteiros, adolescentes youtubers, advogados, cozinheiros, toda a sociedade foi infectada. As pílulas mágicas não vão funcionar, que pena, pois logo agora elas possuem aroma de laranja e não mais o antigo gosto de peixe.

Há algum tempo havia deixado de assistir a filmes ou séries de zumbis. Estava realmente atormentado e amedrontado; não pelo zumbi em si que até é engraçado, mas pela semelhança com a realidade. A filosofia que envolve o morto vivo é intrínseca a nós que ainda não fomos contaminados. Conseguimos detectar os zumbis, assim como na ficção, mas não temos modo algum de ajudá-los. O cérebro destas grotescas criaturas acaba tornando-se um acessório inútil e todo nosso esforço de convencimento também. Elas são dominadas por suas fomes e, geralmente, quem tem fome não pensa de forma clara. Rumina pensamentos primitivos, pois a fome também é algo primitivo, a fim de aliviar a sua agonia. Comer, consumir, sobreviver, nesse ritmo pensar acabou se transformando em algo desnecessário, assim como se importar com a fome dos outros. O zumbi é um genocida egoísta e sem compromisso com o futuro. O que importa é o churrasquinho no final de semana e a vitória de seu time com um gol impedido e ajuda do juiz. Depois ...depois o resto que se vire, bucho cheio e vamos para a próxima. Já estão em estado de putrefação e ainda assim o importante é ser patrão, mesmo que patrão seja só um apelido padrão entre os zumbis da nação.

Bem-vindos à nação zumbi regida pelo deus dólar e pelos aplicativos de smartphone. Mate sua fome, enquanto eles pedalam. I fome. I fuck . You work mas não food . My money comes from the food truck, não tem truque, não fode, trabalhe e com dinheiro de seu suor você não vai adquirir nada de valor. Um infarto ou AVC eu garanto para você. Meritocracia honey, mais um zumbi. Oba, ganho um escravo de ganho e de brinde, cápsulas de ômega 3. Pense em você, extermine com a sua fome através de um click , mate sua sede. Comida é pasto! O gado não sabe que vai para o abate em breve. Pior que se transformar em zumbi é orgulhar-se de ser gado marcado e feliz. Quem se revoltar não ganha diploma de bem comportado e nem fuscão no juízo final, portanto, sorria e diga volte sempre, mesmo que lá no fundo da mente haja um resquício de humanidade, é difícil despertar. É preciso transformar o zumbi em Zumbi dos Palmares e se rebelar, fugir, lutar e atacar.



Alguns amigos que tive transformaram-se em zumbis-gado, não possuem mais cérebro, somente estômago. Sinto um pouco de raiva e pena. Nos filmes de zumbis todos sabem o que fazer para escapar de um, quase sempre a receita é golpear suas cabeças a fim de desativar o cérebro. Quando um amigo ou conhecido transforma-se nisso, não existe remédio. A raiva de saber que aquela pessoa um dia foi legal dá lugar à pena e só restam as lembranças. Sentir raiva de alguém que já não raciocina e está dominado por suas próprias fomes é ser tão insano como a vítima do dano. É provável que algumas dessas pessoas ainda possam ser curadas, por exemplo, se levou somente um arranhão no braço ou uma mordida na perna. O cinema usa seus recursos ficcionais estranhos, sempre surge alguém com um facão ou foice e arranca a parte infectada do ainda humano. O sujeito sobrevive sem um braço ou perna, mas mantém sua sanidade intacta. Contudo, é arriscado manter o convívio saudável com um zumbi-gado, quanto menos se espera ele pode tentar comer seu cérebro e mugir palavras de ordem. Não há como tomar uma cerveja com alguém suspeito, o álcool não mata o vírus. Após uma quantidade ínfima de bebidas, alguns começam a proliferar sandices boca afora. Especialistas recomendam distância de infectados e para que se atente aos seguintes sintomas verborrágicos como: mimimi, China, empreendedorismo, tortura, Cuba, cloroquina, uma nova Venezuela, culpa é do PT, gayzisse, taxa selic, não tinha que ter cota, tudo puta, Ditadura associada aos adjetivos boa/bom/benéfica, meritocracia, tudo vagabundo, rosa e azul, mito, Moro, isso daí, Deus, dízimo, Damares, táokey, etc.

Esse vírus parece ser pior do que o Corona, H1NI, Zika e Febre Amarela juntos; vacinas e lavar as mãos não bastam, alguns que usaram estratégias como recorrer a lugares altos e ficar em cima de muros dizem que já se contaminaram. Lutar é difícil, mas é mais eficaz do que ignorar nosso grande problema. A solução que tem dado resultado é a conscientização dos zumbis com sintomas leves, os chamados assintomáticos, quanto à perigosa evolução de quadro. Se não tratado é provável que o infectado chegue a fase terminal de zumbi-gado e só consiga respirar através de hashtags como: “Fechadocombolsonzzzz... ou Somostodostrumpzzzzz...”. Assim como os zumbis das séries de ficção -que vão perdendo a força ao longo da temporada e passam a ser meros acessórios decorativos e sem função na trama -, o importante é não alimentar o zumbi-gado nessa fase da doença. Nesse caso o melhor é ignorar suas falas desconexas e não deixar que cheguem até pessoas vulneráveis. Todo cuidado é pouco. O vírus, além de matar, pode deixar sequelas irreversíveis.




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