O Dia que Júpiter encontrou Saturno



Os dois planetas se encontram a cada 20 anos, em 2020 ocorreu em 21 de Dezembro. Eu tinha uns 16 ou 17 anos na primeira vez que encontrei Caio. Nessa semana reencontrei o grande autor justamente pela notícia de que haveria um fenômeno chamado “Grande Conjunção”, na qual Júpiter e Saturno se pechariam e os terráqueos conseguiriam observar esse rolê cósmico. Isso me fez reler o conto “O Dia em que Júpiter encontrou Saturno”, do livro Morangos Mofados. Caio Fernando Abreu mistura diversas referências na construção desse conto e algumas delas alinharam-se perfeitamente com esse estranho 2020, especialmente esta segunda quinzena interminável de dezembro. A começar pela epígrafe “Gente espelho de estrelas/ reflexo de esplendor”, versos da música Gente, de Caetano Veloso.


A live do cantor baiano, no dia 19, foi encerrada com essa canção. A frase mais impactante da letra “Gente é para brilhar / Não pra morrer de fome” é a cara desse ano, onde quase nada brilhou, muitos morreram e a fome e a miséria só aumentaram. Além disso, houve outro evento online no dia 20, uma peça de teatro “O Canto da Macabéa”, em homenagem ao centenário de Clarice Lispector. A peça é uma adaptação do romance “A Hora da Estrela”, em que narra as desventuras de Macabéa - datilógrafa, nordestina, miserável e sem consciência de sua própria existência -, que morre atropelada . Novamente surge uma estranha conjunção; alguns trechos da peça remetem a live do Caetano; Macabéa diz frases como “Eu acho que não sou muito gente ...Não me habituei a ser gente”. Na cena final, após o atropelamento, a personagem quer vomitar estrelas “...sente um fundo enjoo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas”. O narrador do livro Rodrigo S.M ( não sei o porquê dessas siglas, talvez sadomasoquista) usa uma frase irônica na última linha do livro: “Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também ?!...Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim”, que me leva a pensar na metáfora do morango e do mofo. Nosso tempo de morangos. A vida não é um morango, mas também não é mofo. Tudo depende do ponto de vista, Júpiter e Saturno nunca irão se encontrar realmente ou se alinhar, mesmo que isso ocorresse, não mudaria a vida da gente da Terra. Gente pode ser espelho de estrelas, mas muitas estrelas já morreram e continuam brilhando no céu. Gente é para brilhar e brilhar neste ano, foi sobreviver.


Li, reli e pirei no conto de Caio. Ler mais de vinte anos após a primeira vez é colossalmente diferente. Com 16 ou 17 anos, as verdades são outras, assim como as referências e, é claro , hoje em dia temos acesso a quase qualquer informação para realizar pesquisas. Entendi que os diálogos são propositalmente ambíguos e, ao mesmo tempo complementares, porém sem gerar conflito entre as personagens. O narrador onisciente coloca duas perspectivas, no começo a da moça e no final a do moço, entretanto, as duas são idênticas e remetem ao isolamento e à solidão “Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem”. A solidão, o estranhamento e o isolamento são características intrínsecas à obra de Caio, um fator que se encaixa perfeitamente nesse ano, mas não é privilégio dele, pois é inerente ao homem. O enredo é bastante simplório, uma moça tímida está em uma festa em um apartamento na cidade de São Paulo (Sampa) sozinha - apesar da música, das pessoas e das drogas - e anima-se com a chegada de um moço. Ele chega até ela lentamente, enquanto ela observa as estrelas e então ocorre um diálogo permeado por momentos de silêncio. Beijam-se e o moço vai embora enquanto se olham pela janela até sumirem das vistas um do outro . Como Júpiter e Saturno, que esperam em média 20 anos para o “encontro”. Todos somos microplanetas tentando um alinhamento com qualquer corpo celeste que nos abrace; sejam nas ideias, no afeto ou qualquer elemento que transmita empatia.


As referências musicais são muito estratégicas - John Lennon, Janis Joplin, Rita Lee, Yoko Ono, Caetano Veloso -, uma vez que nada está descosturado do texto. John Lennon é citado explicitamente, sendo uma espécie de ligação entre as duas personagens que ouvem os disparos dos cinco tiros que alvejaram o beatle, quando na festa toca Getting Better, dos Beatles. Em seguida, no diálogo fazem referência ao assassinato: “-Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também....-Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?”. A morte de Lennon, significa a morte de todos .Quando o beatle foi assassinado, um pedaço da juventude também morreu. Curiosamente Jonh Lennon nasceu em uma conjunção ocorrida em 1940 e morreu alguns dias antes de outra. Provavelmente o conto se passe em dezembro de 1980, pois a conjunção ocorreu em 31 de dezembro de 1980 e a moça explica ao rapaz que amanhã ocorrerá o fenômeno. Outro fato que marca esta data é a citação de um trecho de um poema de Henrique do Valle: “-Você gosta de Júpiter? -Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra". -Que é isso?-Um poema de um menino que vai morrer.-Como é que você sabe?-Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.”. O poeta foi amigo de Caio e faleceu ao cair da sacada de um apartamento em uma festa de carnaval (provavelmente fevereiro ) em 1981. Além da música e da literatura, Caio cita o artista plástico Gregório Gruber para descrever as personagens e remeter ao cinza e esfumaçado de suas telas e da cidade de São Paulo. Talvez por isso o subtítulo do conto seja Nova História Colorida.

A astrologia é outra marca registrada do autor. Eu não acredito em signos, talvez por ser de Capricórnio, no entanto, fui pesquisar sobre a relação de Virgem e Capricórnio. Os dois seriam considerados “pares ideais” e do mesmo elemento terra, ou seja, combinam ou são compatíveis . Descobri que Caio era de Virgem e Rita Lee e Janis Joplin eram de Capricórnio. A moça magra tímida que usou muitas drogas, ri o tempo inteiro e já teve tranças e flores na cabeça parece fazer referência velada a Janis. A canção de Rita Lee “Baila Comigo” aparece quando o moço parte. A construção das personagens faz uso de diversos estereótipos que se encaixariam em qualquer jovem da época, porém achei muito bem elaborada a alusão a duas mulheres de capricórnio.


O alinhamento de Caetano, Clarice e Caio, parece-me mais interessante que a “Grande Conjunção”. E que de 2021 até o infinito se alinhem as consciências e que brilhe gente, porque gente é para brilhar!




O Selo Junte e surte é uma iniciativa do grupo fictício Literasurta. Leia, surte e quem sabe um dia , após juntar 60 selos, receba nossos brindes deprês. Kits de sobremesa, canecas, ventiladores ou alicates; não se sabe o que poderá ser. Então, meu jovem, não perca mais tempo!


* Um jornal popular custa em média dois reais, só serve para ampliar o desmatamento e absorver urina de cães. Doe alguns centavos, talvez até reais e ajude a manter nosso surte e ganhe.



7 visualizações0 comentário

BERTOLDO CULTURAL PROMOÇÃO DE EVENTOS LTDA.

CNPJ: 36.420.889/0001-03

Av. Farrapos, 331 - Porto Alegre, RS | 90220-004

E-mail: contato@bertoldocultural.com.br

Fone / Whatsapp: (51) 99341.1945

© 2021 por Bertoldo Cultural

  • YouTube - Bertoldo Cultural
  • Facebook - Bertoldo Cultural
  • Instagram - Bertoldo Cultural
  • LinkedIn - Bertoldo Cultural