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O Liquidificador de Deus


A vida deveria ser um eterno começo de tarde ensolarada em um dia de folga, entre duas e três da tarde. Oliveiras com céu amarelo, respire fundo; Walter Franco e Van Gogh sobre os ombros. Duas e pouco da tarde imortalizada nessa vida que não existe, digestão concluída com sucesso, tudo sincronizado. A serotonina e outros hormônios, menos nobres, deixando tudo em ordem. A vida não é ordem, nem calma, muito menos essa felicidade plástica. Deveria ser...

Uma nota de cinco para comprar dois litros de leite, isso não deveria ser a vida. Digo que não tenho. Ele não acredita. O casal que passa na rua, algemados a uma criança, poderia ser a vida, mas suas caras de cu e nojo estão mais para um estado de coma induzido. Eles não tem uma nota de cinco. Cinco é muito dinheiro, eles precisam de todo dinheiro do mundo para criar uma criança que se tornará um adulto que não terá cinco, nem quatro, nem dois para dar aos outros. Nos bolsos das calças não acho nada. Nem moedas, girassóis ou orelhas cortadas, nada, só minha impotência de classe média.


Tudo vai se misturando demasiadamente e ficando sem gosto, sem forma. A vida acaba sendo esse amontoado de roupa suja esquecida em uma mala velha. Uma fila longa, uma palestra chata, um filme ruim, uma piada sem graça que nunca acaba; tudo se repetindo em eternos “déjà vus” e teimando em ser tão ruim ou simplesmente ser o caldo que engrossa essa existência cósmica. Tinta, leite, fome, wifi, sol, sede, tarifa bancária, água encanada, Amazônia queimada, comida envenenada, você que não faz nada e nem uma nota de cinco tem. O grande liquidificador com suas pás afiadas mistura tudo e joga essa massa sem cor e sem gosto nas mais diversas cabeças. Pelos olhos e ouvidos tudo é absorvido e tentamos diluir essa mistura através de algum órgão de nosso corpo, porém não o possuímos. E agora? O cérebro tenta identificar algum gosto, cheiro, cor, mas tudo é muito difícil. A vida acaba sendo essa incapacidade permanente de decifrar as porções dessa massa.

Respire fundo, o sol pode diluir e filtrar toda a podridão, não use filtro solar .


Receita de torta de texto fácil da senhora que mora no 205

Ingredientes :


* Van Gogh's ( de google serve) descascados e sem sementes. Pode ser o emoldurado, mas escorra bem a tinta;

* Walter Franco - álbum Respire Fundo ;

* Harmonia Rosales - pegue tudo que puder;

* Cérebro Eletrônico- Deus e o Diabo no Liquidificador ( se não encontrar este ingrediente, substitua por Tatá Aeroplano);

* Simpsons- duas colheres de chá no máximo e Sol a gosto.


Modo de preparo:

Ligue o forno da cabeça , descarte as ideias que estiverem mofadas e coloque sua paciência em banho-maria. Unte um refratário com lágrimas sinceras,pois as de crocodilo dão azia, duas colheres de Simpsons para dar um pouco de acidez. Despeje metade dos Van Gogh's e todas as Rosales que conseguiu em uma batedeira, adicione uma fresta de sol que vier da janela e reserve. Saia para a rua com os Walter Franco e os Tatá / Cérebro Eletrônico no fone de ouvido até dourar. Volte para casa, lave as mãos e misture tudo em um liquidificador , despeje tudo no refratário e asse em fogo alto, tipo 1000° graus. Revolte-se, reflita, frite e taque fogo na panela da paciência, agite a massa e espere. O tempo de preparo pode variar. Harmoniza muito bem com coktail molotov. Acorda, menina!



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