Buscar

Pintura Rupestre



Ela vem, quase sempre, lá pelas quatro ou cinco da tarde. Não sei explicar ao certo, é um calor na nuca e por detrás das orelhas. Pode ser que seja a andropausa. Nessas horas tenho vontade de socar a cara de todo mundo. Socar é um verbo legal, não vejo diferença em socar e soquear, outro verbo legal é tacar ou arrebentar. Gostaria de arrebentar a cara dessa gente a socos e sair andando sem dar satisfações, como se fosse o Steven Seagal. Clint Eastwood, Charles Bronson e Chuck Norris eram mais respeitados e assustadores. Eles eram esculpidos na revolta e banhados na vingança; sabiam bater com classe e fúria. O Seagal era diferente, não tinha as rugas e a expressão sofrida dos outros, nem bigode ou barba, ou seja, era um bobão que usava rabo de cavalo e às vezes até terno e gravata. Sua cara de comediante e seu ar amigável confundiam os inimigos e quando menos esperavam, soco na cara e chute no estômago. Quero fazer isso, olhar uma pessoa como se fosse dar um inocente “boa tarde” e, em seguida, chute na orelha, joelhada no saco, cotovelada no queixo. Quando estou a ponto de começar a cumprir minha missão, surge uma voz que diz “deixa para amanhã”. Acredito que esse amanhã deva chegar em breve.

As pessoas vão crescendo e enchendo suas cabeças de bobagens e seus organismos de agrotóxicos, gorduras e farinhas de todos os tipos; compram coisas inúteis e perdem seus dinheiros suados, roubados ou herdados. Aborrecem a todos com falatórios repetitivos que só interessam a elas e um dia morrem. No meio desse longo caminho é preciso existir alguém como eu, ou como o Steven Seagal, para arrebentar suas caras. Infelizmente não pratico tal ação por não ter a coragem suficiente, poderia dizer que é culpa da voz que adia minhas vontades ou pelo fato de ser um pacifista, mas esta ideia , como podem perceber, contradiz as premissas do parágrafo anterior. A vida é cheia de novos parágrafos, porém todos com as mesmas velhas e ordinárias linhas. Não quero escrever um diário ou caderno de memórias, isso só serve para quem teve uma vida boa no fim, com muitos altos e baixos no meio e fez algo notável pela humanidade como o Steven.

Não vou escrever ou falar de mim ou de Steven. Hoje é o dia de dar um passo para trás e apreciar, se é que isso é possível, a obra de arte com maior amplitude e dedicação. A galeria está abarrotada de quadros com a mesma moldura e cor, o que muda são os tons encardidos e desbotados; só sendo perceptíveis com um pouco de atenção. Arte pela arte, as obras que compõe essa galeria a céu aberto são inúteis para todos. Só servem para fazer o estúpido rir ou entreter um pouco o raso, talvez comover alguém sensível. Contudo, na maioria das vezes, só é capaz de distrair um pouco os dias mornos. Diversas peças antiquadas no brechó da crise inflacionária intermitente, mofo, naftalina e poeira exalam de seus poros de concreto. Mortos-vivos, maltrapilhos, tinta fraca, arte rala Romerobritante que espantaria qualquer Mademoiselle Marchand. Se o intuito da arte é chocar a caixa de ovo em que moro cumpre sua função perfeitamente.




No andar de baixo, paralelo a meu bloco, habitam Rejane e Jorge, como já devem ter percebido eu inventei seus nomes, pois, se você já me conhece um pouco, sabe que sou incapaz de trocar mais de três frases com os vizinhos. Ultrapassei esse limite raras vezes, até já conversei por algum tempo com o Mazzaropi, seu Gaspar ou com algum porteiro, mas nada além disso. Não sei o nome de ninguém, contudo os que lhes atribuo devem ser melhores que os originais. Jamais saberá o meu, meus pais tinham mau gosto, contudo aceitarei que me chame de amigo. Amigo é muito brega, é como os locutores de rádios AM chamam seus ouvintes, mas só permito que me chame assim, pois sei que nunca nos encontraremos “amigo”. Na realidade você nem existe e eu também não existo para você, só minhas palavras que não são arte. Essa é a vantagem do papel que aceita qualquer tipo de arte, até as medíocres.

Jorge perambula por toda a casa vestindo apenas uma cueca, não importando qual seja a temperatura ou estação do ano. Natal, Corpus Christi, finados, dia das mães, sempre a mesma vestimenta variando do cinza ao azul marinho. Umas duas ou três vezes ele surgiu de cueca e regata. Eles têm um aparelho antigo de ar condicionado, mas nunca ligam para que a conta de luz não seja alta ou por estar estragado. Rejane decorou a parte externa do aparelho com vasinhos de orquídeas e pendurou uma água com açúcar que os beija-flores vem beber.

Consigo ver a janela da sala e da cozinha, por sorte não tenho a visão dos quartos. Sempre que dou uma espiada a televisão está ligada, ela fica sobre um móvel que imita madeira, abarrotado de bebidas alcoólicas. Jorge julga ser chique manter garrafas, mesmo que vazias, a fim de decorar a estante. Sempre ganha uma garrafa de sidra de seu chefe no fim do ano, Rejane adora bebidinha docinha e que não tonteia. Além das garrafas Jorge mantém as caixas para protegê-las da poeira e ocultar que o líquido já se esvaiu.

Rejane está sempre limpando a cozinha, mexendo nas plantas ou fritando alguma coisa para Jorge. Ele precisa de carne todos os dias, disse a televisão, seu Deus supremo, juntamente com seu time de futebol e seu carro. A folclórica santa trindade do macho. Ela até capricha na salada, mas ele diz que não é bicho para comer mato. Rejane faz uma composição colorida; beterrabas em cubos, cenouras em rodelas, alface e tomates picados minusculamente. Jorge ignora a habilidade da esposa, só tem olhos para os bifes. Come rápido para não perder o começo do filme, às vezes come no sofá espalhando arroz por tudo. Apesar da salada , sempre há uma caixinha de bombons escondida na cômoda. Ninguém é de ferro, pensa ela, absolvendo-se do ato de rebeldia. Às vezes compra sacos de bala de menta que deixa sobre o móvel da sala, as balas ficam ao alcance de Jorge, mas os chocolates são secretamente só dela. De balinha em balinha, chocolate em chocolate, além dos pudins e bolos preparados magnificamente, Rejane foi multiplicando sua massa. Jorge não ficou para trás, orgulha-se e desfila sua barriga de uma mamãe canguru. Deve usar aqueles ditados de “homem sem barriga é homem sem história” e “a gente tem que comer aquilo que tem vontade, isso não é gordura é excesso de gostosura”, na busca desenfreada de justificar seu colossal crescimento.


Depois que termina de comer, ainda mastigando a última garfada, com a palma da mão golpeia levemente a barriga; sempre uns três ou quatro tapinhas qual o bater de asas de um galo que anuncia a chegada da manhã. Em seguida solta um suspiro de satisfação e diz para sua esposa que está cheio. Ela orgulha-se de sua cozinha simplória, sem variação de cardápio, mas tudo bem feito e com um cliente fiel. Ela acredita que o ganhou mesmo foi pelo estômago e isso mantém o amor bem nutrido. O amor engordurado e açucarado do casal criou um fruto amargo; uma adolescente pálida e magricela que nunca cumprimenta as pessoas. Jorge lamenta por ela ser mulher e sente falta de um menino para ensinar a ser Jorge. Morre de medo que os anos passem e alguém a coma antes do casamento.

A janela da sala está fechada, o show acabou por hoje. Consigo sentir o cheiro de gordura vindo da cozinha, uma espécie de nuvem presa ao teto, amarelada. A gordura passou a ser o quarto integrante da família, um espírito maligno, ajudando a arredondar e fazer crescer cada vez mais as suas formas e tentando se apossar do corpo da menina. A banha corporificada arrasta-se pelo teto da cozinha dos Jorge’s. A menina quase anoréxica deve sentir ojeriza dos pais engordurados, dos blocos com a pintura gasta pelo tempo, de mim e dos cães. Certamente presume que eu seja um tarado e pedófilo, pelo fato de eu a encarar às vezes, porém ela não sabe que faço isso com o intuito científico de nomear a espécie dela. Se dependesse dos pais se chamaria Jorjane ou Jorgina, ainda bem que eu existo para consertar isso.

Rejane colocou uma bandeira do Brasil na janela, foi brinde de um posto de gasolina na época da copa do mundo. Perderam feio, comoção nacional, parecia que haviam roubado todo o dinheiro que o povo tinha na poupança. O canal de televisão pediu para as pessoas continuar sendo patriotas mesmo com o fim dos jogos, os Jorge’s prontamente acataram a ordem que vinha de cima, orgulhosos com a ideia. Inclusive na antena do carro Jorge colocou uma bandeirinha verde e amarela para enfeitar sua deusa de ferro e graxa. Todo domingo à tarde, após a soneca, Jorge tem um compromisso com sua deusa, lava, passa cera e aspirador de pó; tudo com o consentimento de Rejane complacente com o adultério. Ela participa da orgia, sempre que é convocada por Jorge. O ritual só não ocorre nos dias de chuva, fora isso é sempre igual, o rádio do carro ligado em um volume estridente transmitindo algum jogo de futebol, muita gritaria entre o patriarca e o porteiro. Parece briga, mas estão só conversando. Rejane desce com cadeiras de praia, garrafa térmica e um saco de bolachas. A menina contrariada carrega panos e baldes.Ela limpa nos lugares em que Jorge não percebe ou não alcança por culpa da barriga. Assim que estão bem entretidos com seu ménage à tróis, a menina aproveita para sumir dali e trancar-se em seu quarto, a única área da casa livre de gordura.

Para o grande patriarca tudo está parcialmente perfeito, se é que isso é possível. Julga ter um emprego ruim, porém se sente um vencedor por tê-lo em tempos de crise; e, sempre é tempos de crise. Desde o tempo em que Judas caguetou Jesus, passando pelo crack da bolsa e as infinitas guerras mundiais até as mulheres que queimaram sutiãs. Jorge não entende nada disso e nem quer saber ,contanto que não lhe tirem o emprego. A grande crise mesmo é o aumento constante do preço da cerveja, não é fácil, mas Jorge vai levando. Além do mais, possui um estoque de bebidas, televisão e um carro limpo. A única coisa que teme é o comunismo, mesmo não sabendo o que significa a palavra, a televisão lhe informou que esse é o “grande mal”. Ele gostou do bordão televisivo e o repete com ar profético às visitas, aos porteiros e para o pessoal do trabalho. Já teve pesadelos em que comunistas invadiam sua casa e saqueavam suas bebidas, comiam seus bifes e arranhavam seu carro com as unhas.

Rejane não sabe o que significa a palavra orgasmo, também nunca sentiu um. Gostaria de mais carinho, menos cerveja e que Jorge ao menos lavasse os pés antes de deitar-se, porque dá muito trabalho lavar roupa de cama todo santo dia. Isso é o de menos o que importa é que ele é um bom pai e trabalhador, nunca se atrasou, pelo contrário sai antes e volta depois para casa. Tudo vai bem para ela, pois tem a igreja e graças a Deus nenhuma doença grave na família. Tia Margot tem bursite, mas já está quase curada com as orações de Rejane. Seus objetos de desejo são panos de prato bordados e cultua também potes de vidro para colocar mantimentos.

A menina pálida e inominável só quer fazer 16 anos, foi esse o prazo que determinou para rebelar-se. Pintará os cabelos de verde, namorará meninos e meninas, fará tatuagens, fumará maconha no quarto e ficará fora de casa o tempo que quiser. Sempre que as amigas de Rejane disserem que ela já está uma moça e que vai dar trabalho ou quando Jorge pedir para que ela desça com panos e baldes ; um pequeno Steven Seagal arrebentará como úlcera e fará com que a menina os mande tomar no cu.

Deixa para amanhã a voz diz como um mantra, um Jazz infindável que pede para meu fígado suportar todo o ódio e nojo. Afinal de contas o errado sempre fui eu. Os Jorges estão certos, a voz está certa. Todas as Rejanes com suas cadeiras de praia também estão. A bandeira na janela não representa nada além do Jorgismo e há milhares deles dentro e fora da caixa de ovo. Nossos ancestrais eram Jorges e Rejanes, nada de Adão e Eva. A literatura enganou as pessoas por séculos com seus Romeus e Julietas, as novelas com suas Helenas e Fernandos. No fundo, todos sempre foram grandessíssimos Jorges e Rejanes. O mundo só gira por que é impulsionado pelos passos firmes e cegos deles, o DNA da rotação terrestre e quiçá da translação está condicionado a isso. Jorge gira, Rejane roda e o mundo se mantém pacificado pelo cordial homem de Neandertal do Leme ao Pontal.



E você aí achando que se livraria de tudo isso organizando saraus, protestos, rodas de debates, participando de movimentos artísticos, reciclando o lixo, lendo bons livros, entendendo de vinhos, meditando, praticando yoga , pilates, acupuntura, cumprindo regras sociais, dando bom dia a estranhos, aderindo ao veganismo, abraçando árvores em via pública, fundando ONGS, lamento. Lamento mesmo. Há um Jorge primitivo dentro de você, não há remédio eficaz. Segure-o o máximo que puder e só o liberte, se necessário, quando não houver nenhum ser vivo por perto.



O Selo Junte e surte é uma iniciativa do grupo fictício Literasurta. Leia, surte e quem sabe um dia , após juntar 60 selos, receba nossos brindes deprês. Kits de sobremesa, canecas, ventiladores ou alicates; não se sabe o que poderá ser. Então, meu jovem, não perca mais tempo!

* Um jornal popular custa em média dois reais, só serve para ampliar o desmatamento e absorver urina de cães. Doe alguns centavos, talvez até reais e ajude a manter nosso surte e ganhe.

14 visualizações0 comentário
© 2021 por Bertoldo Cultural.

BERTOLDO CULTURAL PROMOÇÃO DE EVENTOS LTDA.

CNPJ: 36.420.889/0001-03

Av. Farrapos, 331 - Floresta

Porto Alegre, RS | 90220-004

E-mail: contato@bertoldocultural.com.br

Fone / Whatsapp: (51) 99341.1945