Pupila





O vazio retumba dentro da cabeça vazia. Há infinito espaço, o som do nada ecoa em uma mansão sem móveis. Imóveis são minhas ações que só caem na bolsa de meus valores. A estagnação disfarçada de paz - com seu uniforme monocromático, sorriso enigmático e estratégico para a manutenção de uma falsa cordialidade inútil a todos- mandou que eu colocasse as mãos na parede, verificou meus documentos. Tudo bem, tudo bom. Finjo ser bom, ela finge ser paz. A bondade forçada cheira à palidez das tardes nubladas. Caralhada de gente tenta embarcar nesse bonde da bondade, sempre lento e vazio, e faz questão de esquecer as bagagens. Para ser bom e atingir o Nirvana é só jogar fora todas as bagagens e deixar o grande nada absorver tudo. Importante mesmo é mandar se lixar e passar uma segunda demão de egoísmo.

É preciso fingir pane no motor. Dia mundial do silêncio absoluto, neurônios entrando em greve. Sinapses estranhas, falsas como réplicas grosseiras de relógios caros. O sol nunca sai de moda, o sol pode ser falsificado, as coisas se repetindo infinitamente. As gotas finas de chuva causando cegueira, agarradas ao vidro da janela, multiplicando os raios solares em mil pedaços. Novos sóis em um céu transgênico. Toda luz é agressão. O gosto salgado na boca, soro antiofídico vencido. A onda vem, a boca abre, o sal arde no nariz. No céu, palato estrelado após jorrar vômito ensanguentado. Gostaria de tomar um banho de sal grosso. Sal de fruta resolveria essa azia. O sangue não sabe para onde vai, acompanha a marcha da torcida organizada enfurecida. Minha vontade é inútil como a gosma branca da barata esmagada pelo transeunte atrasado e distraído com sua vida efervescente. O barato já passou , meu palato palpável afiado palito no qual meto o dedo e volta o vômito dolorido que rasga a garganta. Sinto o cheiro da cera do ouvido, parece que o tímpano foi estourado. Coloco todas as podridões de minha alma em um pote de vidro de Nescafé. O líquido colorido forma um arco-íris na parede, assim que o sol refrata. As angústias são multicolores, amargas, azedas, tóxicas, doces e o vazio é completo. Tudo seria perfeito se fosse ao contrário em um prisma invertido. Ganesha, me dê sua cabeça. Preciso respirar, mas a janela fechada mantém os insetos do lado de fora e conserva o calor insuportável aqui dentro. A luz que vem da rua não respeita meu quarto, pelas frestas de madeira faz um tremendo estrago, não sinto sono, só vazio e vontade de um dia ter um ar-condicionado com a potência em BTUs equivalente a minha ressaca.


Escovo os dentes e penso que hoje não. Analiso as olheiras, os olhos vermelhos, a barba mal feita, o rosto inchado da noite anterior. Hoje não. Cada passo é uma maratona. Após grande esforço consigo tirar a roupa . Despido no banheiro abafado, em frente ao espelho, tento rememorar cada trajeto. O vazio e a amnésia são as bagagens perdidas do bom senso, melhor não forçar. Hoje não. Minhas cuecas são todas iguais, 95% algodão e 5% elastano; 100% puídas ou rasgadas. Quase todas cinzas, chumbo, grafite. Não sei qual é a limpa, as duas estão amassadas, procuro vestígios de líquido seminal ou alguma rodela de mijo seco. Cheiro as cuecas em frente ao espelho. A cena que vejo é estranha; um homem feio com uma expressão assustadora cafungando uma cueca suja. Bate uma vergonha, penso no Show de Truman e nas pessoas que poderiam estar assistindo a isso. As pessoas são todas sujas, por mais que se higienizem e usem perfumes. Todo mundo fede no calor. Paro de pensar em tudo e me fixo na pupila. As pupilas são todas iguais. Deus não teve criatividade nessa invenção. Pequena, preta, cansada. Nunca viu a beleza e a felicidade, só deseja uma pálpebra pesada que a cubra mesmo nesse calor. Todas as pupilas são iguais, todas as pessoas, todas as minhas cuecas. As bebidas têm o mesmo gosto, os amigos dizem as mesmas frases.

Não importa qual cueca é a limpa, mas sim proteger a menina das visões repetidas. A luz das coisas a agride, um choque anafilático e a pálpebra a salva de um atropelamento líquido. O resto do corpo fudido gosta, água gelada, pancadas massageando e empurrando as toxinas pelo ralo. O tato aguçado, contato da pele fuçando nas paredes molhadas, as mãos em riste pressionando os azulejos escorregadios. Os malditos sons do mundo patrolados pela força da água que grita ao chocar-se contra o chão. Milhões de cadáveres de ácaros afogados. Sou o lábaro bárbaro da modernidade assassina, por mais que a água corra sobre meu corpo estarei sempre sujo, destruindo minhas células e toda biologia possível. Meu silêncio não é culpa ou iluminação, é vergonha bruta. A pupila retraída dentro do globo ocular espremido pelas pálpebras, as narinas cheiradoras de cueca com os portões fechados, a boca cerrada; não tenho os sentidos em harmonia, só escuto a queda. Tudo é opção e hoje não.


Guardo somente para mim alguma questão de fácil resolução, porém é muito difícil ordenar a mente em um corpo não são. Debaixo do chuveiro os grandes segredos da humanidade podem ser revelados, batizados pela água. Sinto um resquício da noite anterior, um microscópico triângulo ou quadrado submerso, encalacrado em uma célula alienígena. O corpo estranho é multicolorido e está entre as pupilas, ele reanima minha carcaça molhada. Não sei se é sensação ou sentimento, coberto de sedimentos cavouco as entranhas dessa coisa que não tem forma, nem fórmula e, pelo visto, nem volta. Dissolve-se, mas não se resolve. Não quero resolver nada, sinto-me bem demais. A alquimia artificial alinha os chakras, alivia a tensão dos fios da consciência, tudo se repetindo infinitamente, porém agora tudo bem. Quase me encontrei dentro dessa escuridão colorida e úmida, quase já é o bastante. A solução para tudo pode ser o brilho da luz que chicoteia meus olhos, mas não é preciso saber de nada. A escuridão é uma dádiva, um beijo no solo enrugado da preguiça.

O ralo me olha, o olho abre, a lágrima dança e se despede da menina. Todas as coisas, mesmo as úteis, escorrem para fora de mim. Digo hoje não, mas o telefone toca e eu digo sim.


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