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Quer ser líder? Passe antes pelo teatro.

AS ARTES DRAMÁTICAS E A LIDERANÇA por Giovana De Figueiredo


Se por acaso nos perguntassem qual a relação entre a arte de representar e a ‘expertise’ da liderança, acredito que, para a maioria, a primeira conexão que viria à cabeça é a ideia de que uma colaboração frutífera entre ambas se daria graças à capacidade de se conseguir simular e controlar, artificialmente, as próprias emoções.


Para se conquistar e conduzir uma audiência, portanto, seria crucial este domínio, desde que minuciosamente calculado. Segundo o ator, diretor e professor de estilos Phillipe Gaulier, o espírito desta competência, ao contrário, se encontra nas profundidades abissais de nossa pureza infantil.


Philippe Gaulier

Há anos mantendo um curso prestigiado por atores e estudantes de Teatro, dentre os quais estrelas de primeira grandeza como Emma Thompson, Sacha Baron Cohen, Roberto Benigni e Helena Bonham Carter, este senhor francês, um misto de palhaço com bufão (o ‘primo’ sarcástico do palhaço), é categórico ao afirmar que o grande trunfo, na prática, é NÃO SER CHATO.


“Booooring” é uma avaliação constante que ele costuma fazer nos exercícios que desconstroem as armaduras emocionais de defesa de seus alunos. O diretor que provocou uma revolução subterrânea no Teatro do Reino Unido nos anos 1980 e 90 (escola atualmente com sede nos arredores de Paris), a partir de um viés didático ‘cruel’, manteve por anos uma oficina para não-atores, adultos com a intenção (e pretensão) de se tornarem líderes. Centenas de profissionais de diversas áreas e países se submeteram ao escrutínio do olhar do mestre, e acabaram por atravessar as mesmas dificuldades (e também os prazeres) dos artistas dos cursos regulares, aprendizes e profissionais.


A peculariedade de um curso de palhaço


Como uma atriz que já se aventurou por dois cursos relativamente aprofundados do estilo (um deles no método Gaulier), afirmo que a categoria dos narizes vermelhos é ao mesmo tempo em que a mais perturbadora, a mais democrática das técnicas teatrais, pelo menos curricularmente falando.


Explico: num exercício básico do aprendizado do palhaço, um amador de outra área tem, por uma característica exclusiva do estado criativo deste gênero específico, boas chances de se dar bem no jogo cênico (na graça e no carisma), TANTO QUANTO um ator profissional experimentado. Por quê?

Gaulier, ao partir do pressuposto de que a cumplicidade entre líderes e seus seguidores é a mesma cumplicidade que existe entre atores e seu público, elege o prazer como o ‘grande bastão de cola’ que vai garantir a permissão afetiva para que o artista possa perfurar as mentes racionais da plateia.


Obter prazer na cena é o que vai balizar a qualidade do jogo dos candidatos a palhaço, pois trata-se muito mais de um estado de entrega, lúdico e subjetivo (até por isto que deve ser despretensioso), que um desfile de conhecimentos técnicos adquiridos. Mas é claro, por ser uma linguagem dramática, em outro patamar que não o cotidiano (mesmo reproduzindo o dia-a-dia), os corpos devem ter o tamanho e especificidades técnicas para que suas ações sejam vistas, ouvidas e decodificadas pela plateia.


O trabalho de Gaulier é ensinar as pessoas a “serem maiores do que a imagem que têm de si”. É nesse nível de mergulho sempre posto a um artista que as pessoas vão comprometer sua lealdade mais profunda. É esta também a essência da liderança. Para se obter e transmitir prazer em estar na ribalta-liderança, há que se exalar liberdade.


Por que o viés ‘malvado’ do treinamento? Vamos por partes. O primeiro instinto de comunicação de um candidato a ‘comandante’ é: “Vou te mostrar o que sei!” Por quê? Porque estampar nosso currículo de cara nos garante algum status, antecipa rejeição e diminui possíveis conflitos, o que só comprova nossa necessidade de autoproteção. Só que, na lógica artística, essas emoções nos restringem. A autoconsciência, além de interromper as ações mais instintivas, cria uma barreira entre as pessoas. E isso é o tal ‘booooring’ que o mestre francês utiliza para desmontar as armaduras emocionais de seus pupilos desconcertados.


Se o argumento central é o de que isolar as pessoas é enfadonho, aborrecer as audiências com tédio e condescendência é o caminho certeiro para perder sua atenção e, consequentemente, a permissão afetiva para liderá-las. E ele faz questão de nominar sua técnica de ‘open heart surgery’: algo como uma ‘cirurgia com o coração exposto’. Esta almejada sensibilidade levará à linguagem do acordo, da cooperação e comunicação que conecta os líderes a seus ouvintes, seguidores e clientes. Ao atingir profunda e diretamente seu núcleo emocional, a ideia desta intersecção disciplinar fica nítida: os palhaços tocam no coração. Eles não têm nada a perder, portanto, usam toda a liberdade que desejam. Esse é o prazer com o qual os outros se conectam. E isso vale também para os líderes.


Qual o mecanismo desta desconstrução? É sobre aprender a rir de si mesmo. Uma vez que não estamos mais apegados ao que esperam de nós, nos detendo em quem somos de verdade, paramos de nos levar tão a sério... 100% deliberada, a técnica baseada em escrachos (mas também em poesia), tem a ver com vulnerabilidade, falibilidade e ludicidade infantil. Palhaços se apresentam para um público e não se importam se as pessoas riem deles. Ao contrário, querem conquistar este ‘troféu’. Tal libertação tem tudo a ver com prazer - é nesse interregno que se conquista engajamento afetivo.


As aulas de palhaço


Se um exercício dá errado, os alunos costumam escutar coisas como: “Você é a definição da incompetência”, “Isso é chato. É praticamente um sonífero "zzzzzzz...”. Assim, isolados no palco, os alunos de Gaulier ficam nus em seu fracasso, enquanto seus colegas riem alegremente de seu desconforto. E é justamente neste momento em que aparece o ‘estado do palhaço’: o loser humanizado, o paspalho desmoralizado, o cara-de-pau metido a besta. Eis aqui a alma do comediante. As ‘broncas’ de Gaulier são uma forma provocativa de fazer aflorar a humanidade do jogador. Uma vez vencido (e compreendido) este desconforto, o domínio da própria comicidade flui, transmutando os erros em acertos. O aluno, tendo como meta do jogo fazer, por exemplo, um discurso improvisado sobre ‘as últimas descobertas paleontológicas sobre o mamute mexicano de tromba azul ’, e ainda falando em russo, estará inexoravelmente fadado ao fracasso e ao ridículo. A chave do negócio será sua fé inabalável em sua pose e discurso em língua desconhecida. A crença com que ele se agarra a esta função ingrata é a crença da criança quando brinca: ela acredita! Uma vez que o público vai rir desta missão impossível, porém executada com louvor, estará ganho o jogo do ator em cena.


E os líderes do mundo do trabalho com isto?


Para gerar engajamento e confiança, um líder, do alto de sua posição hierárquica, deve SIM exalar prazer e conforto em estar lá. Como não se pode comunicar prazer a menos que se sinta, a matéria-bruta do líder, suas emoções, devem estar aquecidas e ‘corajosas’. Até porque se a pessoa sente que não tem o direito de expor suas emoções é porque não confia muito nelas. Para controlar esta intrincada engrenagem psíquica e orgânica, a arte do Teatro pode ser útil.


Um novo paradigma desponta para o líder corporativo.


A era do líder como alguém com ‘qualidades excepcionais’ é o lugar comum da maioria das escolas de negócios, fincadas no empirismo lógico e estruturadas a partir de uma visão unicamente econômica de negócios. Estas competências técnicas, as "hard skills", acabam por formatar profissionais com pensamento puramente linear, que não têm necessariamente uma visão crítica nem reflexiva. Pois tal paradigma tradicional está sendo questionado na busca de uma nova concepção, que venha quebrar a hegemonia da visão tradicional da liderança, um fenômeno predominantemente vertical, hierárquico com seus velhos monopólios de poder e autoridade.


A LIDERANÇA "PÓS-HEROICA"


Sob tal perspectiva, as competências relacionais, coletivistas e participativas são vitais aos cargos de liderança. As respectivas teorias vão enfatizar muito mais, portanto, as interações e habilidades de comunicação, o trabalho em equipe, a resolução compartilhada de conflitos e a criatividade. Toda esta abordagem e suas ferramentas deverão ser incluídas de modo transversal nos currículos e nas metodologias de ensino, a fim de formar líderes preparados para o atual contexto organizacional. A essência é priorizar a natureza social da liderança.


Uma grande novidade? Não. Um dos primeiros autores a desafiar esse modelo de ‘liderança heroica’ é...uma mulher ! E há cem anos atrás ! Em 1924, Mary Parker Follet, no seu livro "The Creative Experience", afirma que "liderança não é definida pelo exercício de poder, mas pela capacidade de aumentar o senso de poder naqueles que são liderados".


Abordagens mais holísticas e humanísticas dos líderes poderão constar, por exemplo, em desenhos de currículos multidisciplinares, em práticas pedagógicas experimentais que permitam a materialização de tais princípios. Como só é possível aprender sobre liderança por meio da prática de liderança, assim como só é possível aprende a dirigir, dirigindo, este "aprender fazendo" seja, talvez, a única maneira de virar a chave do desenvolvimento de talentos de liderança e assim, liberar o potencial de inventividade de uma organização.


É imperativo, então, que as escolas de gestão e organização invistam em abordagens menos tradicionais, fazendo uso de metodologias alternativas: o "role play", simulações e atividades de "Problem Based Learning" ou mesmo de... Teatro! A tal disrupção – termo chave de 10 entre 10 discursos empreendedores, inovadores e vencedores –, poderia muito bem se ancorar nesse inusitado cruzamento dos negócios com as artes.


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