Troco pra PIX de cem ?


Bateram com um pacote de dados em minha cabeça. Tentaram me matar ou formatar, o que dá no mesmo. Bateram tão forte a fim de que eu não me reconhecesse mais. O meu reflexo agora era duvidoso. Costuraram o que sobrou de meu rosto com fibra ótica e me encheram de filtros. Foram sacanas demais, cravaram antenas de wi-fi por debaixo de minhas unhas. Ofereceram milhas pelo que restou de minha alma. Enfiaram chips - um de cada operadora - entre meus trinta e poucos dentes e passaram algodão molhado com spams em minhas gengivas cortadas. Golpearam minhas costelas com barras de rolagem, escanearam minhas vontades. Algemaram-me a redes sociais, injetaram algorítimos em minha corrente sanguínea via cabo Adsl- lsdA: A de artificial, a lisergia da conexão. Deletei essa piada antes que eles me bloqueassem. Tudo pesou. O navegador nunca viu o mar, o carregador não consegue carregar, o servidor não foi encontrado e nunca será! Corra servidor, seu serviço só causa dissabor, só serve a pessoas artificiais com seus bronzeamentos artificiais, clareamentos dentais, harmonizações faciais e se nada der certo, o Deus Photoshop resolve seus males banais. Selfie sem sacrifício, emoji de coração garantido.

Não conseguia respirar, as janelas eram virtuais e viviam travando e mimetizando tudo que fosse tátil. Naquelas telas não havia tinta, só marcas de dedos e cores cintilantes; pixels no lugar de marcas de pinceis. O céu é um sonho, só via o teto com seus fios e cabos. Na janela virtual sempre aparecia uma nuvem carregada com minha vida espremida em alguns gigabytes. Ela carrega todas as nossas vidas vigiadas, programadas e julgadas por amigos, influencers, seguidores ou qualquer outro nome besta ao qual denominam qualquer idiota que aperte um botão.

A atualização do sistema está cada vez mais rápida. Antes de usar seu Cashback para F1, cuidado para não tomar um F5 e ficar offline e ofegante procurando a nova onda no navegador. Cuidado com a Deep Web, efeito colateral que seu sistema fez, mas quem sou eu para falar. Eles me pegaram e não deram arrego. Pegaram todo mundo que estava na volta; não só na volta da rua, mas na volta do planeta. Facebook é RG, Instagram é CPF. Eletricidade é água e sinal de internet é pasto. Dinheiro é Pix. Bem-vindo à Matrix e não adianta correr do Qr code. Tá tudo filmado, editado e catalogado. O gado tá marcado, cercado e sempre será castrado quando oferecer perigo e abatido se persistirem os sintomas. O robô invisível rouba seu tempo, parte de sua grana virtual e algumas de suas conexões neurais, mas não dá nada quando pintar o 5G; o terceiro mundo vai excluir a miséria e fazer comida em impressora 3D.

Antes de me largarem, mandaram que eu passasse em uma salinha que chamavam de room alguma coisa gold. Lá me trataram diferente como se precisassem de mim. Ganhei uma caixinha de papelão envolta em plásticos bolha e um manual de instruções. A moça digitava freneticamente e confirmava meus dados, sempre olhando para a tela e dizendo “Ok” para si mesma. Imprimiu um boleto e disse que no próximo mês ele chegaria pelo meu e-mail e que eu poderia pagar pelo meu internet bank, banquei o entendido e disse “Ok”, já que só queria sair dali logo. Ela ainda enfatizou que eu precisaria ler o manual de instruções e carregar corretamente os fios a meus órgãos vitais por pelo menos 12 horas na primeira vez.



Fui me adaptando. Não vivia mais sem essas coisas que antes eram supérfluas. Tudo foi ficando sem surpresa, sem sabor... Coloriram de veneno a minha comida e meus pensamentos e passei a velejar em um calmo mar de “mais ou menos se vai levando e fazer o quê, né?”. Não conseguia achar o caminho certo sem o GPS. Não precisava mais usar a minha memória, tinha a infinita RAM, sem raiva tudo solucionado. Coisas (com suas ofertas incríveis e falsas) que eu não precisava pulavam aos meus olhos, em seguida as comprava. Chegavam caixas e mais caixas de desilusões pelo correio. As coisas da caixa só eram legais na tela, sem o touch screen a vida é dura. Não sabia mais se a imagem era do Sócrates ou do Gonzaguinha. Não lembrava qual a base de um Homem na Estrada, se era Jorge Ben Jor ou Tim Maia. Calor insuportável. 28 graus e eu sem meu 4G, suando burrice, bugou a máquina, só sei que nada sei sem meu São Googlezeiro das causas impossíveis. Todas as lanchonetes de fast-food são amarelas e vermelhas. Parei em frente de uma e lembrei de Um Dia de Fúria. Entrei ali para usar o wi-fi, na cara dura. Resolvi minhas dúvidas ordinárias, além disso, pesquisei sobre o amarelo e o vermelho. Amarelo, vazio; vermelho, fome. Não pense em nada, venha comer, “Já foi atendido, senhor?”, “ Vocês ainda estão servindo o café da manhã?” ele não riu e começou a dizer números, combos e todos os tamanhos dos lanches. Ele não tinha idade para ter visto Um Dia de Fúria. Ele não tinha idade para estar ali, deve ter abandonado a escola. Disse a ele que estava indeciso, isso dava tempo de roubar um pouco mais de sinal. A porcaria do botão verde apareceu com alertas em vermelho. É a fome de mensagens inúteis. Surgiu um “Bom dia!” acompanhado de uma carinha amarela piscando o olho e um cãozinho, devia ser o combo do dia. Um bom dia vazio e sem fritas. Respondi “Bom dia!” e devolvi com o primeiro símbolo que apareceu: uma xícara de café sorrindo. Saí dali um pouco mais amarelo do que o de costume. Quando rasguei os boletos e cortei os fios, senti uma dor de cabeça tremenda. As luzes ainda piscavam, vibrações, bips e assobios por todo o lado. Tentava ampliar as letras dos livros e as imagens pequenas utilizando o indicador e o polegar. O tempo não passava, era tanto tempo que me sobrava que consegui até pensar nas coisas que não levam baterias, pilhas, fios. Era tanto tempo que me sobrava que eu comecei a pensar novamente nas pessoas e na piada cruel e sem graça que virou o mundo.



O Selo Junte e surte é uma iniciativa do grupo fictício Literasurta. Leia, surte e quem sabe um dia , após juntar 60 selos, receba nossos brindes deprês. Kits de sobremesa, canecas, ventiladores ou alicates; não se sabe o que poderá ser. Então, meu jovem, não perca mais tempo!

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